terça-feira, 14 de abril de 2015

| Maisa Antunes |

| 31 de março de 2015 | 



Emiliana




Uma das primeiras coisas que observei em Emiliana foi uma meninice revelada nas mãos.

Ela era toda mulher, bem mulher, maquiada, salto alto, batom bem firmado, e um sinal no olho, dentro do olho, como se fizesse parte da maquiagem. Mas as mãos dela diziam coisas diferentes. As mãos dela eram pequeninas, bem meninas, e pareciam ainda desejar os jogos, bem poderiam ser outros tipos de brinquedos, ainda assim revelavam infância, inocência, e disposição para brincar.
Pensei algumas vezes que poderia ser uma espécie de síndrome de Alice*, esticou de um lado, esticou de outro, todas as partes do corpo, e as mãos não acompanharam. E assim explodia a mulher para todos os lados e a menina ficou dependurada nas mãos.

De outros tempos e lugares, Emiliana, vez ou outra, gritava para as mãos: “Olá, pequenas mãos! Fiquem aí, a infância é melhor”; ou ainda: “Olá, pequenas mãos! Fiquem daí a fazer-me de mim sempre uma menina”. E assim ia se fazendo menina com as próprias mãos.



* Da história Alice no país das maravilhas (de Lewis Carroll)