terça-feira, 6 de janeiro de 2015

| Fernando Coelho |

|23 de dezembro de 2014 |



Arqueologia de um recado de amor insustentável. Não esqueci. Você vai viver, no futuro, a minha idade de amor. Não sei como é isso. Talvez seja bom, porque você tem a pureza da palha. Será bom, porque você define a felicidade intraduzível. Mas nenhum poeta, nenhum instrutor de palavras (e são tantos, e tão primários, e tão soltos na verdade do amor!), nenhum escritor dos que gosta ou não, nenhum compositor, ninguém te cantará em emoção mais do que eu, por estes dias (são dias de peso marítimo). E sei, mais do que todos, que tudo acaba. Não sou destes tempos. Não nasci aqui. Encontrar você é um processo alquímico do imponderável. Não acredito no destino. Acredito no que houve, antes, no que se perdeu, no que se chorou, na permanência do amor como um segredo que Deus inventou pra ele, e me deixou, de maneira louca, saber. Tenho visto você. Tenho permanecido em sua porta, a de casa, olhando você entrar e sair do carro, de mãos dadas com a sua vida, suas coisas, seus amores, suas esperanças e sua força para vencer coisas que lhe deixam triste (seu humor é poético). Eu apareço nessa hora, em sua sombra, para não fazer barulho, para não lhe incomodar, para continuar desconhecido, para não chamar a atenção dos outros, a lhe olharem na pracinha, admirados com o lusco-fusco dos teus cabelos de manjericão. (Eles, ninguém, pode saber que eu sou, existo, vivo e te escrevo, nos eixos do coreto). Por dias, tenho apreciado seus gestos, ao emparelhar os cabelos ao longo do rosto, ao mexer no batom ralo e discreto disfarçando o carnudo de sua boca, ao escrever seus poemas rasantes, mexendo nos cabelos como o faz, ao perceber o toque leve do perfume em seus antebraços, como gosta, pesados de palavras com sono, ao sentar-se no sofá, cruzando as pernas da direita para a esquerda, a lembrar-me um passo do Bolshoi. Recolhendo as pernas como a recolher-se. Não lhe olho no banho, para que rubra, não deixe entre sabão nos olhos. Mas estendo a toalha seca. Te calço de beijos, depois. Eu sou aquele que te escreve, não porque sabe ou quer. É o meu trabalho lhe poetar. Te beijo com alguma alegria, porque total eu não sei como é. Perdoe o bilhete pessimamente escrito. E só.