Carta para João Anzanello Carrascoza
Na infância li centenas de gibis. Eu comecei a faltar ainda mais as aulas para ler as histórias da Turma da Mônica, Chico Bento, Tio Patinhas... Foi também neste tempo que li pela primeira vez um livro que minha mãe me deu, "Meu pé de laranja lima"; ri e chorei muito, mas parei por aí. É que livros, para mim, lembravam livros didáticos e os sermões da Bíblia... Eu detestava os dois. E por algum motivo o "Meu pé de laranja lima" não conseguiu alcançar as minhas raízes, ou era eu que não estava pronto para suas sementes... Só muitos anos mais tarde é que Waldisio Araújo me emprestou “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, este sim, revelou-me que “um livro é um organismo vivo...” (Antonio Lobo Antunes). Como Gabriel Garcia Marques, “fui picado pela literatura...”.
Por um tempo, Waldisio e eu, nos encontrávamos para conversar e desconversar sobre a vida cotidiana e a vida dos livros. Mas, aquilo que reforçou nossa amizade colaborou também com nosso afastamento: os livros. Acho que eu era mais próximo de Waldisio quando não lia... Ele adubava e cultivava preferências literárias diferentes das minhas. Um exemplo: Waldisio achava Oscar Wilde afetado, eu acho o escritor irlandês genial... Ele me disse que nunca havia lido Exupéry e não gostava, eu li e reli quase tudo do autor de “Terra dos Homens” e cada vez amo-o mais... Como gostam de dizer os portugueses: "Está tudo dito!".
Mesmo assim, devo ao “Retina” (Waldisio Araújo), o meu segundo-primeiro livro, e ao meu querido amigo e ateu de fé, Hélio Freitas, a premonição de que os livros e eu nos olharíamos mais de perto. Acertou. Waldisio, Hélio, muito obrigado.
Hoje os livros dormem, acordam e tomam café comigo. Alimentam-se de mim e eu deles. Concordo com Nélida Piñon: Somos despreparados para a vida e imperfeitos para a ficção. Acredito nisto, Nélida, mas, como você, acredito também que a ficção nos prepara melhor para a vida.
Mas eu tenho um tipo de tristeza que não me dá tanta tristeza em tê-la, é a certeza de não podermos compartilhar com alguns autores que tanto amamos, retribuir, nem que fosse apenas com um olhar, o carinho que suas obras nos deram. Gostaria tanto de passar uma tarde conversando sobre as coisas simples da vida com Rubem Braga, uma noite ao lado de Antônio Maria, visitar de vez em quando Hermann Hesse, subir na torre de minhas dúvidas com Montaigne, rir com Wilde, voar pelo deserto com Exupéry, silenciar e escavar letras com Miguel Torga, imaginar cidades invisíveis com Italo Calvino, chorar com Clarice Lispector. Proust, queria confessar minhas crises de ciúmes para você... e brigar de frente com a estupidez coletiva, lado a lado com Susan Sontag... Mas é tarde, todos eles já morreram. Posso apenas conversar e brigar com eles, e ao lado deles, dentro de mim. E é muito, mas eu queria, se pudesse, mais...
Em uma entrevista perguntaram a Susan Sontag o que um escritor deve fazer, ela respondeu: Várias coisas. Amar as palavras, atormentar-se com as frases. E estar atento ao mundo. João Anzanello Carrascoza, seus belos e encantadores contos revelam-nos que você ama as palavras, atormenta-se com cada frase e está sempre atento ao mundo amplo dos dias aparentemente comuns. Toda vez que releio suas frases sinto-as como se fossem “Rosas do deserto” , com um perfume discreto e os espinhos certos, “Espinhos e Alfinetes”. Você sabe que “depois que crescemos, a felicidade, a gente só tem se o destino se distrair um minuto”. E este é o papel do artista, do poeta, distrair o destino, a realidade e ampliar como pode o universo individual de cada olhar. Você é um poeta e seus contos ampliam e enfeitam ainda mais minha decorada solidão. Obrigado, João.
