25 de novembro de 2014
Seis horas morrendo. Tinha morrido, mas ninguém avisou. Uma sinfonia de anonimatos. Tinha morrido embrulhado de silêncios, e assim tinha cólicas de não abrir a boca. Cólica é mais bonito do que dor de barriga. E tinha ajudado a criar asas em passarinhos, mesmo os mais foscos e desdentados, e primeiro fazia os ventos. Tinha morrido numa hora imprópria, boboca, isto é, na hora em que choveu, aquela chuva de lado, se chuva de lado é a mais teimosa, desobediente e molha até o que não se pode molhar. Chuva de lado é quando o céu bata palmas pro mar. Tinha morrido, enfim, mas como quem acordou, muito cedo para o sol, muito tarde para a lua, todinho enfeitado de fontes com tordos, elefantes, aranhas junto. E ainda teve tempo pra colocar meia dúzia de anjos mornos em disco voador de capim. Fiquei olhando que ele me olhou. E brotou cócegas de lágrimas. Teve tempo de me pedir pra chorar. Ele morreu no dia em que o meu cachorro, há 4 anos, sumiu. Meu cachorro é um desenho em papel crepom, perdido na beirada da sarjeta dos meus livros velhos. Meu coração tem jeito de farinha de mandioca. Teve tempo pra inventar o nome do meu amor, poeta que é, sempre, inventor de coisas separadas. Eu tinha pedido, quando ele enferrujava camaleão. Ele se distrai alisando bico de pintassilgo. Tinha certeza que tinha morrido antes, antes de nascer, porque gostava de sonhar com o relógio preguiçoso no pulso das garças. Colecionava pedras. Pedras jogadas fora pelo orvalho. Expunha rios ao riso das margens. Ele tinha morrido hoje. Esbaforido de esquecimento. Ainda bem que morreu antes de ficar velho. Como eu, ele não quer ficar velho, embora tenha morrido. Ele, eu e o meu amor só vamos morrer no dia em que a gente quiser. Aliás, a mulher que eu amo é leve, pequena, do tamanho de um pingo. E a gente só vai querer morrer ontem. Hoje não dá tempo. Temos que viver. Como ele voa, viaja mais fácil por sobre os degraus de nuvens. Fica cansado de olhar pra baixo. Mas resolveu deixar tudo o que tinha na fazenda dele. Semeado com cisco, ventanias, galopes em pântanos sorrateiros e amor piscando o coração. A plantação de poemas.