terça-feira, 9 de dezembro de 2014

| Edmar Conceição |

25 de novembro de 2014





Meu pai dedicava quase todas as suas manhãs para reler o mesmo romance de Ivan Clementino – Na Cruz do Caririzeiro. Lembro-me que ele balançava sempre suas pernas e, às vezes, também a cabeça, principalmente quando ria sobre algo engraçado, como se a leitura o transformasse em uma libélula, fazendo-o voar para além das asas das páginas já bem amareladas do livro. Engraçado, acho que também imito o mesmo voo quando leio Manoel de Barros.

Há alguns dias, Wilson enviou-me uma mensagem eletrônica, lembrando-me da crônica de Marcos Cesário, afirmando que Manoel de Barros não morreu, pois os poetas não morrem. Verdade, amigos, o poeta cuiabano não foi mesmo enterrado, foi plantado com as simples coisas do chão mijadas de orvalho, o mesmo chão que ele sempre “brincou de fazer poesia”, escovando palavras entre formigas e lesmas, até o verbo ficar no ponto, no seu estado de delírio.

Também recebi várias mensagens de amigos que sabem da minha predileção por Manoel. No barzinho da faculdade não faltaram brindes e recitais em homenagem ao poeta. Depois de alguns copos de cerveja, de alguma forma, todos queriam carregar água na peneira e pegar na bunda do vento.

Até a orientadora do curso de Direito enviou uma mensagem de pesar, pois defendo na minha monografia que a interpretação jurídica seria mais justa se, por exemplo, seguissem o olhar distorcido da antiga namorada de Manoel de Barros que não via uma garça na beira do rio, mas um rio na beira da garça. Quem dera que, ao invés do requerente ficar na beira de um processo burocrático e autoritário, fosse o processo que ficasse na beira do requerente.

No entanto, foi no mesmo e-mail que Wilson mandou, com seu carinho delicado, que mais me cativou a lembrança do poeta. Ele me chama de “menino cronista” e lamenta que Manoel não tenha me conhecido, pois enxergamos o mundo de forma parecida, com a “lente inocente da infância”, nunca perdendo a capacidade de admirar o mundo. No final, ele se despede anunciando sua curiosidade para ler minha próxima crônica.

Confesso que ainda estou emocionado com os olhos generosos e afetuosos de Wilson. Logo ele, filho de Dona Dete, que me inspirou uma crônica que tanto gosto, uma mãe/menina que combina com os versos de Manoel, por suas travessuras nas margens sinuosas do Catuni da Grota, onde suas cirandas não permitem as expressões retas e sérias demais, pela desordem misteriosa dos seus olhos sempre infantis, caçando o improvável.

Wilson, é um privilégio ter o seu olhar raro, um leitor tão sensível e peculiar. Agora tenho mais um ingrediente para o ritual da minha escrita, a quimera de ter alguém do outro lado que aguarda o texto de um “menino cronista”, atiçando mais delírio nos meus frágeis dedos. Quem sabe, um dia, o que escrevo faça alguém voar, da mesma forma que Ivan Clementino fazia com meu pai. Agora entendo melhor Manoel de Barros, quando ele diz que é preciso “ser Outros” e “renovar o homem com borboletas”.