terça-feira, 22 de julho de 2014

| Edmar Conceição |

08 de julho de 2014





Ainda não tinha acendido a fogueira junina quando Juracy chegou. Era uma visita que se prometia há anos, foi um pedaço de noite de degustação de lembranças, licor e risos. Crescemos ouvindo o apito do trem, a linha férrea atravessava as margens de nossas casas, talvez por isso somos tão andarilhos e nossas estações não se cruzem com habitualidade.

Foi bom recordar o tempo da faculdade. Dividimos por quatro meses um apartamento. Tivemos algumas dificuldades risonhas na distribuição dos afazeres domésticos e nos filmes de terror que meu amigo alugava e depois se trancava no quarto com medo de minha imaginação.

Não lembro o sabor do suco de manga que ele fazia todas às noites, mas recordo do copo do liquidificador amarelado e dos goles fartos que ele deliciava. Não sei se isso contribuiu, mas até hoje evito suco com cor amarela.

Éramos dois rapazolas tentando a independência familiar e econômica, tínhamos pouco dinheiro. Certo dia, como não havia fogão e às vezes o nosso pão era dormido, meu amigo queria esquentá-lo. Até hoje solto gargalhadas da solução que ele trouxe do supermercado: um frasco do álcool. Derramou um pouco no chão e ateou fogo. Era tanta a vontade que ele não se importava quando, na incerteza da chama invisível, além do pão, sapecava também seus dedos. No final, mesmo cheirando mal, aparentou apetitoso. Fiquei com inveja, cortei o riso e pedi ajuda: traz o álcool, Juracy, agora é minha vez.

Éramos alunos do curso de pedagogia e, nas horas distraídas, nos dedicávamos a poesias e vinhos. Juracy já mostrava seu talento com a pintura e eu me aventurava no teatro. Hoje, ele se tornou um doutor em educação e é lindo seu olhar poético sobre a ecologia. Quanto a mim, enveredei no caminho do Direito e me arrisco nas reminiscências líricas como esta crônica.

Nesta noite, meu amigo fez um convite. Haveria um ritual indígena com amigos e pesquisadores de uma árvore nativa. Sem muitos detalhes, explicou que fariam um chá de uma raiz que ajudava a fazer uma lavagem espiritual.

Inicialmente pareceu tentador, descobri, recentemente, que sou descendente de índios, segundo minha mãe, minha tataravó era uma bela índia que foi “tirada da mata a dente de cachorro”. No entanto, recuei quando disse que era sensato não beber meus uísques antes do ritual, pois o chá tinha o poder de soltar algumas coisas internas que fogem ao nosso controle.

Não fui, tive medo. Talvez eu nem tenha tanto pecado ou revelação que me comprometa. Clarice Lispector diz que “é preciso ser maior que a culpa. A culpa me amesquinha”. Por outro lado, acho que soltar todos os pecados de uma vez me empobrece. Como diz Manoel de Barros: “o escuro me ilumina”.

Uma vez vi um casal de namorados, inspirados em um filme que não conheço, desafiando-se: “confessa metade dos teus crimes que eu confesso os meus”. Acho perigoso, como diz um colega: “Volt”, “lá longe”.

Soube que foi um sucesso o evento. Lavaram o espírito. Talvez um dia eu me liberte de minha silenciosa covardia. É prazeroso ter Juracy por perto, mas, por enquanto, vou me lavando sozinho, pois acho que quando me entrego ao papel é como se escovasse um pedaço de minha alma, sempre descascando algo de mim. Quem sabe um dia eu seja minha escrita por inteiro. Por ora, fico com meus pequenos feitiços, pelo menos não me privam o jejum etílico e me dão um mote para uma nova crônica.