- Marilha nasceu bem. O poema é por sua conta!
Já faz um bom tempo que recebi esta mensagem de meu amigo Átila. Não cumpri com o trato, embora não falte o devir poético de quem se acostumou a ser embarcação e naufrágio, a ser correnteza e cais, volúpia e espera.
Mestre Átila, não há dúvidas, Marilha nasceu muito bem. Seu nome é travessia, basta sussurra-lo e partirá um belo saveiro, colhendo ilusões em cada pálpebra azulada que se abre, acreditando nas margens do horizonte que, aos poucos, cravam-se em âncoras.
Na verdade, Marilha já é um poema, não cabe mais nada. Qualquer tentativa, transborda. E quem o recitar terá que ter a cadência precisa de quem mira na carruagem do encontro, de quem é tempestade e brisa, ventania e garoa.
Átila, você que tem o feitiço delicado do violão, brincando sempre com as notas de sua intuição, prepara uma modinha de ninar para Marilha. Encontra um acorde que lembre a noite caindo no mar, uma cantoria que chore, por que o mar é entrega e solidão, é arrebatamento e partida. Mas não esqueça, moço, dedilhe com força e ternura no final, pois, haverá sempre uma promessa de uma ilha quimérica que deságue nosso ínterim, a esperança de um pouso de quem sustenta suas asas com o ardor das lágrimas marítimas e o colo morno da enseada.
Pretendia fazer uma crônica longa, discorrendo impressões de poetas que se dedicaram aos mistérios do “mar” e “ilhas” desertas, como Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes e Neruda. Não, acho que não. Marilha também já basta nesta crônica. Acho melhor assim, já faz horas que tento terminar essa crônica e não consigo, repetindo baixinho o nome de tua filha, como se fosse um barco em plena valsa no alto mar, avistando a ilha que se cria dentro de mim. Não sei o porque, mas acredito, também, que você sente a mesma coisa quando está à deriva com Marilha, esquecendo, às vezes, até do seu violão.
Mar... ilha...