sábado, 4 de janeiro de 2014

| José António Franco |





era uma vez o vento

gramaticalmente ambíguo e destruidor o vento trabalhava para um tirano que vivia num enorme palácio de mármore com muitos lagos e sombras de árvores de fruto e criados e gritos que se estatelavam contra a violência pragmática dos muros

de todo o lado o vento transportava mensagens de dor e de revolta mas o tirano como resposta ordenava ao vento a destruição de aldeias inteiras e o vento erguia árvores seculares nos seus braços gigantescos e atirava-as sobre multidões cada vez maiores e mais unidas na vertiginosa renúncia ao medo e uma a uma todas as casas eram criteriosamente devassadas pelo sopro brutal do algoz e os telhados disparados pelos ares trucidando os corpos dos resistentes e a consciência dos covardes e dos distraídos ou indiferentes

listas intermináveis divulgavam os nomes daqueles que dia após dia eram arrancados do chão e desapareciam sem rasto nem despedida por entre a cumplicidade cinzenta das nuvens

um dia o sol raiou deixando o céu escancarado de um azul encardido e terrível é que sem nuvens desguarneceu-se a verdade e a todos foi possível reconhecer cá de baixo os amigos e parentes levados pelo vento aquando das suas tempestades investidas contra os que desafiavam o poder do senhor

pairavam eles então sobre o sopro do vento daquele vento que se sentiu traído pela ausência de nuvens e corou corou de vergonha pela sua rudeza posta a nu sem justificação nem consentimento e fraquejou

e o sopro humilhado do vento definhou até permitir que todos aqueles corpos chegassem ao chão

partiu o vento e nunca mais serviu senhor algum

se bem que um relato de uma verdadeira catástrofe atmosférica esta história tem uma moralidade muito simples que pode ser contra o vento de nada vale um guarda-chuva ou então esta outra um pouco mais popular antes cegues que mal vejas