sábado, 4 de janeiro de 2014

| José António Franco |






era uma vez um cão chamado direito humano que andava sempre a correr atrás dos automóveis e quando não corria atrás dos automóveis gostava de se sentar no passeio a aprender a ler

um dia enquanto ele estava a exercitar a leitura numa folha rasgada de um jornal chegou um homem muito mau chamado guardião do saber e disse-lhe os cães não podem aprender a ler e o cão chamado direito humano atirou-se para a estrada e pôs-se de novo a correr atrás dos automóveis

desde então sempre que estava a aprender a ler o guardião do saber aparecia e impedia-o brutalmente de continuar e como se isso não bastasse mal ele se punha a correr atrás dos automóveis as pessoas atiravam-lhe com latas vazias

mas apesar de toda aquela violência o direito humano não desanimou

numa tarde quente de verão enquanto andava ao banho com os cachorritos de uma ninhada recente apanhou uma lata que descia a corrente e começou a ler em voz alta os dizeres pintados com cores muito agradáveis

os filhitos sairam logo da água e sentaram-se à sua volta muito entusiasmados e atentos

foi então que o direito humano decidiu coleccionar as latas que lhe atiravam dos automóveis e com elas continuar a aprendizagem da leitura na velha gruta que tinham alugado para a família

quando o inverno chegou já os filhotes do direito humano sabiam soletrar e no verão seguinte já liam um jornal de fio a pavio

custou-lhes cara essa habilidade é que o guardião do saber foi informado disso mandou-os recolher ao canil municipal onde toda a ninhada foi abatida

toda não

um dos filhos do direito humano conseguiu esconder-se e continua por aí a coleccionar latas vazias para ensinar os cães vadios a ler


deus disse que quem ganhasse se risse