aos tropeções na bebedeira o acúrsio ia escorrendo ladeira abaixo os olhos cuspindo o negrume da noite e palavrões enrodilhados na surrapa do belarmino da venda de cima
sem família à espera nem alma viva na rua que o orientasse até ao casebre lá no cimo de uma das muitas encostas que encarceravam a aldeia o acúrsio acabou por se deixar cair de encontro ao muro do Zeferino e por lá ficou na paz dos anjos de aduelas largas encimadas por roxos narizinhos
andava o dia ainda em preparos para a lida e já o Flávio roncador prantado para o trabalho saía de casa a caminho de umas territas que tinha herdado lá no vale de mula bailarina e ao passar pela casa do Zeferino dá com aquele corpo espezinhado pelo relento como uma nau que o mar vai estraçalhando com salgado deleite depois de a ter naufragado entre rochedos
de mastros desfeitos e com a proa escaqueirada o acúrsio jazia insensível às vagas e o Flávio sem ver meio de animar aquela quilha inerte pôs-se a roncar e roncou roncou até aparecer alguém para ajudar mas era já tarde que o mar inexorável tinha deixado o outro de velas estraçalhadas e sem simples bote que o arrastasse até porto quente e amigo
no dia seguinte deitaram o acúrsio à terra e ele por lá ficou
para o funeral além do coveiro e do padre afonso apareceram três pessoas e muitos pássaros às voltas com as flores dos cardos e com as amoras bravas que pejavam os matagais em redor
que coisa mais macabra olhem para o que me havia de dar ná matar um homem assim sem mais bem menos tenham paciência mas esta história tem de ter outro final
o Zeferino que se preparava para a deita ouviu barulho e veio à janela e viu que era o acúrsio com a carraspana do dia de pagamento e vai assim para a mulher olha é o ti acúrsio vou lá dar-lhe uma ajudita que o homem ainda se fica por aí nalguma valeta e foi e trouxe-o para dentro e deu-lhe broa e presunto e quando se viu sentado ao borralho ainda com o fogo viçoso o ti acúrsio disse assim porra Zeferino ainda há gente boa se não fosses tu este marmanjo das histórias tinha-me mandado para melhor pois então
e desataram à conversa noite fora com o calor da lareira a crepitar-lhes nos rostos
vinho e solidão batem mais forte que as palavras mas há quem diga que quem duma escapa cem anos vive e nem que os senhores das vagas façam luz dentro de um caroço de azeitona não acreditem em rotas alheias que eles andaram a mexer na estrela polar