sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

| João Manuel Ribeiro |




Se eu de ti não me tricotar

Ontem não tive tempo de ler-te os versos sossegadamente
a noite ardilosa pariu o cansaço eu fiquei a ver-te
desmurar a cal da folha branca e a entorpecer as sílabas
tu és um país de mel e eu vivo longe em exílio
os poemas em que me sento são canções de saudade e desejo
nas margens desta babilónia seja de cinza e perdição
este meu exílio se eu de ti não me tricotar



Mais cortante do que qualquer faca


Reclino-me no silêncio que puseste à cabeça
e estendo as mãos para um qualquer murmúrio que te pesa
dizes devagar os sentidos
inverso modo de desaguar a dor
imagino tantas vezes a morte dinamitada
a vida assim é mais cortante do que qualquer faca
sobre a cor branda dos dias



O saxofone de John Coltrane


Vem afogar-te comigo no golfo ázimo do sax
de John Coltrane
Esbracejaremos até aceder a esse tom vegetal
Se for preciso intimaremos os dedos
para que nos disponha na respiração exata
essa suscetível de nos arremessar contra a música
[apesar do ruído indecifrável do disco antigo]