sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

| João Manuel Ribeiro |





Lenta Insolação

O dióspiro
no bico das aves
seduz as magnólias.

Adentrados nos mistérios da seiva, 
ficamos a prumo na fruteira,
a desejar a epifania da boca,
mordendo as veias
ou em lenta insolação.


Naufrágio de paz azul

Pensarás no futuro sem comportas,
fronteiras e outras amarras afetas ao medo,
uma brecha onde pôr a mão
e semear uma clareira de repouso.

Não sei que atalho deva dar à voz 
para escrever o naufrágio de paz azul.


A memória do poema

Quando o útero se romper
e não for mais possível parir o poema,
os pulsos, num grito excessivo,
rasgar-se-ão, talhados de frémitos.
O silêncio crescerá como farpas nos pulmões.

A memória do poema será a seiva, a pulsação,
o estilhaço entre as pernas das palavras.