sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

| João Manuel Ribeiro |




Sentir é viajar

O desconcerto das palavras encavalitadas
na escada do sentido é às vezes nem sei
se um corredor-universo ou um sussurro soturno
ou apenas nomes confusos certo é que o fumo
- não do ópio de que [sei-o] também gosta -
me faz sentir viver ser apesar da pequenez
unificadamente diverso dispersadamente atento
ao ritmo do escreve o senhor engenheiro

Inversamente dentro de mim que o leio
não está preso nem atado a nada
senão às palavras urgentes do poema
aos movimentos do universo à fúria
dos átomos e de todas as chamas ou
à raiva dos ventos e dos rios em tempestade
às chamas explosivas e às correias
que movem as grandes máquinas

O poema que esqueceu na gabardine descurada
entra-me desabrido pelo corpo e ruge
estoira vence quebra estrondeia sacode
freme treme espuma venta viola explode
perde-me transcende-me circunda-me
vive-me rompe e foge – oh meu deus -
sobrevive em mim em todas as direções!

Eu sou assim um leitor alucinado
[tão perto de morrer sufocado]!


O meu Chevrolet na estrada de Sintra

Soube por interposta pessoa senhor engenheiro
que o meu velho Chevrolet emprestado
andou ao luar perto da meia noite
na estrada de Sintra, ora quase de devagar
ora acelerando desejos terríveis súbitos violentos
a derivar utopias sem propósito nem metafísica
que é o que melhor sabe fazer o seu coração
na estrada da vida nem sempre a dos sonhos
ainda assim fico feliz por o meu velho Chevrolet
esconder a sua angústia à criança
espreitando pelo vidro da janela