Uma caligrafia muito alta, redonda e serena
Soletro cada passo teu como quem aprende a ler.
És um texto sempre inesperado. Eu prendo-me às palavras,
penduro-me na beleza das sílabas e balbucio-te.
Aprendi já tantos verbos irregulares, verbos que
me apertam e se aprisionam na memória dos dias,
que os conjugo amuralhados de advérbios crescidos.
Aprendi uma caligrafia muito alta, redonda e serena.
Escrevinhei demoradamente o papiro de teu corpo.
Distraio-me a contar os substantivos que te vestem.
Acredito [quase para além do limite das minhas forças]
que nunca vou interpretar-te inteiramente.
Há de haver sempre um verso inóspito e saliente
a fustigar-me a vida e a fazer de mim um incessante aprendiz.
A tempestade líquida dos dias
Respira [violentissimamente] a combustão
do corpo tenro da menina dos olhos cegos.
Não sei sossegar o desgosto dos parentes.
Nunca a cegueira cresceu como agora.
As mãos pernoitam na soleira da quietude.
Navego, à deriva, em redor da península
da língua, mas atravessa os olhos
a tempestade evidente dos dias.
Ao redor da tatuagem
Andei sem pé ao redor da tatuagem no ombro.
Como sair de casa pela manhã e ir ao deus-dará,
na ambição de desvendar a geometria ordeira
da cidade e regressar náufrago com limos e cansaços.
Chegar a casa e ter-te sentada à sombra do limoeiro,
pronta a respirar-me sem licença ou consentimento,
como se eu fosse um rapaz alado e indescritível.
Não sei que faça ou narre deste desvario,
solto apenas um temporal de caligrafias febris.