sábado, 4 de janeiro de 2014

| Catarina Gomes |









Ainda hoje a cidade disputada pelo Douro e pelo Atlântico é sinónimo de tradição. Quem viaja de comboio pode admirar, antes de entrar na estação de Campanhã, a mágica malha urbana constituída por casas já velhas pintadas de cores quentes e torradas. Todas muito juntas umas das outras, são apenas separadas pela linha de comboio que atravessa todo o monte até São Bento. Ainda não andei em nenhum intercidades onde passageiros não se levantassem para a admirar à janela. Sinto-me sempre orgulhosa, como se tivesse antes ela nascido de mim, e não o contrário. O Douro só pode ser mais bonito quando visto numa manhã de bruma, quando os barcos rebelo já saíram para o rio.

Chegando a São Bento, estação histórica inaugurada em 1916, há sempre quem esteja a fotografar os azulejos. A primeira pedra da estação foi lá posta pelo rei D. Carlos I, depois do mosteiro que antes ocupava o seu lugar ter sido perdido num incêndio. Nos painéis é possível reconhecer vários momentos marcantes da história de Portugal, como a Conquista de Ceuta.

O centro histórico valeu à cidade, em 1996, o título de Património Cultural da Humanidade. A melhor maneira de visitá-lo é de elétrico. Há uma certa nostalgia no ato de viajar de elétrico; sente-se quase saudade de um tempo que já passou e é possível talvez experimentar a velhice como se tivesse chegado. A cidade mudou à volta do elétrico e os que a observam também já não são os mesmos.






Quem desce até à ribeira e passa pelas ruelas estreitas encontra sempre prostitutas fortezinhas a papaguear entre si nas horas mortas, que não hesitam em estender um cumprimento divertido a qualquer um que passe, no distintivo sotaque do porto. Aqui as gentes dotam-se do dom de bem receber e a simpatia é a moeda de troca: ri-se em conjunto e sofre-se em conjunto. A tradição é mãe. O povo é apegado aos costumes e mais que isso só à boa comida.

O Porto sabe servir e sabe vender-se. Faz vinho reconhecido mundialmente. As caves onde envelhece, do outro lado do rio, estão sinalizadas por um grande placar amarelo onde se distingue uma figura negra encapada. De noite, as iluminações caem sobre as caves e sobre os barcos, que estão sempre no mesmo lugar. Alguns já nunca partem para o rio – as cores desgastaram-se, os nomes mal se leem. Um barco devia ter um nome mesmo que não saia para o mar. Nas ruas há quem passeie, há quem arrume os iscos e as canas de pesca e há ainda quem jogue matraquilhos. À noite, os cafés enchem-se e declama-se poesia.







Durante as festas de São João por todo o lado se bebe vinho e come sardinha assada. As pessoas falam alto e as vozes das mulheres chegam a superar as dos homens. Desde a Avenida dos Aliados até ao rio enchem-se as ruas; por todo o lado se ouve o som dos martelos de plástico a bater nas cabeças alheias. Nessa noite dançasse ao som de música popular. É das únicas alturas em que os jovens se juntam aos pais e avós para festejarem em conjunto, guardando respeito solene à tradição e dançando música que em outro dia qualquer despeitariam. De manhã, quando a banda finalmente se cala e não resta que se coma, é ver as gentes atravessarem a ribeira a passo lento até chegar à praia - o tradicional “passeio da vergonha” depois da noite de festividade.

Conta a lenda que nos ensinam na escola que em 1415 se construíam nas margens do Douro as naus que tomariam Ceuta. Satisfeito com o trabalho, o Infante D. Henrique pediu à mui nobre gente do Douro que cedesse toda a carne da cidade para abastecer os barcos. Restaram apenas as tripas, que os habitantes comeram e comovido com o seu gesto, o Infante apelidou-os de “tripeiros”. E tripeiros permanecemos. Porque o Porto, mais que um clube, é uma nação de aferroados.