sábado, 4 de janeiro de 2014

| Catarina Gomes |









Na manhã de sábado cruzei-me com o irmão de uma colega de casa. Ergueu para mim os olhos raiados de vermelho de quem mal foi à cama para um rápido cumprimento, e encaminhou-se expedito para a mesa onde deixara o material do estudo. Sem sequer se permitir o seu cigarro matinal, dispôs novamente em frente a si os resumos da obra de Saramago, Memorial do Convento. O irmão da minha colega estudava para o exame de Português do 12º ano, mesmo sem saber se chegaria a fazê-lo. Porquê? Por causa da greve.
Na manhã de dia 17, alunos por todo o país preparavam-se para um exame que podiam ou não vir a fazer. A presença de professores substitutos nas escolas possibilitou à larga maioria dos estudantes (70%) a oportunidade de fazê-lo. Houve ainda assim os que preferiram não ir – alguns pelo desejo de abraçar a causa dos professores e toma-la como sua, participando nas reivindicações.

É impossível afirmar no entanto que todos os alunos ausentes partilhassem essa razão. Muitos haverão faltado por falta de estudo, seguros de que haveria nova data para exame. Outros terão sido absorvidos pela multidão de manifestantes só para serem expelidos da mesma depois do primeiro contacto febril. Terão acabado quiçá por voltar a casa, entrado num café, escapado até ao pavilhão de ginástica com um baseado já acesso a pender-lhes dos lábios.

De entre os alunos ouvidos pelos órgãos de comunicação há aqueles que fizeram a prova simpatéticos com os professores mas notei que a maioria se assumia contra a greve, o que corrobora a suspeita de a juventude ter uma visão pouco ampla do estado das coisas. Pela minha parte posso adiantar que as medidas extremas do governo provocam respostas extremas – a população foi confrontada de repente com uma nova medida de austeridade e não teve tempo de discutir maneiras sensatas de reagir. Teve por isso de fazê-lo procurando réplica com o maior impacto possível. Quem tem conhecimento do tipo de manifestações que o povo português tem levado a cabo nos últimos anos sabe que só numa situação extrema reagiria ousadamente.

A realidade que a comunidade de professores enfrenta é a seguinte: mesmo o docente com vinte anos de experiência arrisca-se a passar para o Programa de Mobilidade que, despido do seu eufemismo, visa o despedimento em grande número. Uma vez em casa os docentes passam a receber 60% do seu salário durante doze meses, até terem oportunidade de candidatar-se a nova colocação, o que poderá (mas na maioria dos casos não irá) acontecer. Com efeito, os professores que mantêm os seus cargos vêm a sua carga laboral engrossar, tal como o número de alunos, problemas já recorrentes no tempo em que eu andava no liceu.






O ministro da educação declarou que uma greve em tempo de exames é uma greve que “utiliza como reféns os alunos e avança sem pensar no prejuízo que isso causa”. Calma. Os alunos vão ficar bem. Terão novo exame, mais tempo para estudar e os mais ousados estarão de bem com a sua consciência por terem apoiado os seus professores. Já os docentes que atenderam ao chamamento do ministério e substituíram os indignados não podem regozijar-se do mesmo.

Pessoas com filhos no ensino secundário sentir-se-ão porventura gratas aos professores que estiveram presentes no dia da prova. Pessoalmente não possuo tal consciência maternal, nem de minha natureza nem por me ter sido imposta tal contingência. Exerço por isso um pensamento mais frio: a greve é um direito de todos. Está bem assente na constituição que quando o Estado-providência não age de acordo com o seu princípio base, deve ser chamado a prestar contas. Os alunos são tão reféns dos professores como do governo, que os usou como pretexto no “braço de ferro” que manteve com os sindicatos. Acaso tivesse esta greve ocorrido antes ou depois daquele dia que impacto poderia ter? “Desconfiem das águas paradas”, se me permitem parafrasear o famoso dito. Se alguém quiser exemplo para os filhos na atual conjuntura apontem-lhes os professores que aderiram à greve. É deles que depende o Estado Social.

O irmão da minha colega de casa chegou há pouco. Parece-me bem. Pergunto-lhe como lhe correu e ele diz-me que sim com a cabeça. Que perdeu foi tempo com o Saramago. Pobre Saramago. Faz hoje três anos que nos deixou. Em tempos também ele fez greve e faltou ao exame de português. Falta quem agite as águas por aqui.