O Sustentável negócio da fé
Em recente visita à capital italiana pude observar de perto a contagiante energia dos milhões de fieis que a visitam, bem como a rigidez das normas a que estão sujeitos nos principais locais de culto. Uma em particular causou-me especial indignação: o modo como o corpo feminino é obrigado a cobrir-se para ter livre acesso aos referidos espaços. Os ombros, bem como o peito, devem então ser ocultados com um lenço, que são vendidos pela "simbólica" quantia de 1,50 € nas catedrais. Os joelhos devem ser igualmente tapados. Sim porque, em Roma, em inícios de Agosto quando as temperaturas atingem os 39 graus e assim se mantêm o dia todo, é impensável fazer turismo vestindo calças.
Em Florença, na Catedral de Santa Maria del Fiore, vi a entrada ser-me barrada mesmo depois de me ter tapado como me haviam indicado. Se já o ato de cobrir os ombros me tinha causado uma certa repulsa, semelhante à que já tinha experimentado enquanto observava estatuetas castradas, o facto de me convidarem a abandonar o local insultou-me. Insultou-me o desrespeito pelas formas, pela beleza e pelo natural. Não há formas mais belas, mais ingénitas e mais perfeitas que as do corpo. Perfeitas sim, não fossem feitas à imagem do criador, como nos ditam desde pequenos. Como é que o corpo pode ser insultuoso? Antes do catolicismo ser adotado por Roma e passar a imperar no ocidente, havia a cultura do feminino: as formas de uma mulher eram a ponte para um contacto com o divino, com o inalcançável. Hoje temem-se as formas. Já não há inocência. Eva provou a maçã e, apercebendo-se da sua nudez, cobriu-a envergonhada.
Custa-me acreditar que apenas uma agnóstica como eu seja sensível a tais questões. Creio que até a católica mais fervorosa sente um friozinho no estômago quando convidada a cobrir os braços. A Igreja não pode censurar o afastamento dos católicos e jovens praticantes se insistem em condenar o que há de mais instintivo e natural nos seres humanos. Porque teremos nós de tentar se divinos quando até Cristo, na sua divindade, foi humano?
Abstenho-me o mais que posso de discutir assuntos da religião. Mas quando envolvi o lenço escuro ao meu redor sem resistência senti que traía a minha crença. O que é afinal a Igreja (e por Igreja refiro-me à entidade humana) senão uma forma de repressão dissimulada?