sábado, 4 de janeiro de 2014

| Catarina Gomes |











O projeto “Lado a Lado”, iniciado em janeiro de 2009, nasceu da parceria conjunta da Associação Académica de Coimbra (AAC) e do Centro de Acolhimento João Paulo II (CAJPII). A ideia era juntar idosos e estudantes na mesma casa de modo a proporcionar companhia aos mais velhos e habitação mais em conta aos mais novos. No início a procura não era muita e apenas nove estudantes tinham beneficiado do projeto até 2012, havendo bem mais candidatos idosos em lista de espera. Contudo essa realidade veio alterar-se no último ano, segundo a técnica do serviço social do CAJPII, Teresa Sousa, uma vez que se tem “verificado o aumento da procura de ambos os lados”.

O processo de inscrição é muito simples: os estudantes dirigem-se ao gabinete de Ação Social da AAC ou ao CAJPII, onde é feita a referenciação por telefone ou correio eletrónico de uma entidade para outra. Numa segunda instância todos os candidatos têm de fazer um teste com uma psicóloga do Centro, tendo a opção de o concretizar em casa se assim preferirem. “Fazemos uma avaliação da situação económica e psicológica do estudante. Os idosos passam igualmente por essa avaliação mas os testes são mais direcionados para a sua cognição, para apurar as capacidades que ainda têm”. Estes testes servem ainda para apurar a compatibilidade de personalidade entre candidatos, acrescenta Teresa Sousa. “Se um idoso quer companhia e um estudante está motivado para ajudar, então colocamo-los lado a lado”.

Daniel Bandeira, estudante do 1º ano de Matemática, tomou conhecimento da iniciativa ainda na escola secundária através da sua psicóloga. “Gostei da ideia mas ainda vivi primeiro em outra casa. Só mais tarde comecei a informar-me na internet e decidi ligar para saber mais”, relata o estudante. Recorda que os testes que fez serviam para averiguar traços específicos da sua personalidade. “Lembro-me que me perguntavam a certa altura acerca de comportamentos agressivos que tivesse tido”, evoca. Hoje vive com uma idosa na rua Padre António Vieira e paga bem menos já que a sua contribuição é simbólica. “Fazemos companhia um ao outro. Vou muitas vezes à farmácia por ela e só vou a casa a cada duas semanas para que não fique só, já que as filhas vivem longe”. Pergunto-lhe se em algum momento de aflição a sua presença na vida da senhora se revelou decisiva e Daniel não se alonga em reminiscências para responder: “num domingo desapareceu e nem sequer veio a casa almoçar. Nesse dia tinha deixado o telemóvel em casa por isso estava incontactável. Fui procura-la pelos sítios que sabia que costumava frequentar e acabei por encontra-la”.

Até bem pouco tempo a única pessoa que usufruía do projeto era Margarida Leão, de momento a tirar especialização em Pedopsiquiatria. “Tomei conhecimento do projeto por uma sobrinha que está em Lisboa a estudar e fez parte do projeto lá”. Na altura em que se mudara para a cidade não conhecia ninguém e consolava-a ter em casa alguém para quem voltar, “alguém que esperava que chegasse do trabalho e me fizesse companhia”. “Eu e a dona Fernanda damo-nos muito bem. O primeiro encontro foi simpático. Houve uma empatia automática. Rapidamente percebi que era uma senhora muito autónoma em pensamento e organizada, que no fundo é o que sou”. A experiência tem favorecido de igual modo a idosa que graças à ajuda de Margarida conseguiu realizar projetos há muito adiados, devido à sua desgastada condição física. “A senhora gostava de ter o jardim cultivado mas não tinha como tratá-lo, então comecei eu a plantar uma horta. Temos tido muitos momentos divertidos”, soma.




As donas Fernandas da Gil Vicente







Devo ter circunvagado pela rua Gil Vicente durante meia hora antes de encontrar duas senhoras que, vendo-me perdida, se acercaram de mim para saber ao que vinha. “São os números das casas que confundem uma pessoa, aqui em frente está o 139 e ali adiante já é o 3”, explica uma. Perguntei se conheciam a senhora Fernanda que vivia com uma jovem estudante de medicina. As idosas trocam olhares incautos e uma delas aponta para o local de onde tinha vindo. “Há ali uma dona Fernanda no terceiro andar do número dois. Mas acho que mora sozinha. É viúva, sabe”. Uma senhora que entrava no número 2 segura-me a porta da entrada indica-me desde logo a porta do primeiro andar direito onde, segundo ela, vive a dona Fernanda que pretendo. Esta dona Fernanda é-o com certeza mas não a que procuro. Acaba com a minha confusão trazendo-me às escadas exteriores para me indicar a que porta deverei bater, a duas habitações da sua do lado contrário da rua. “É o número 2A. Bata e se ela não responder volte e liga do meu telefone para lá. Mas não a estou a ver viver com ninguém, com o feitiozinho que ela tem”.


A dona Fernanda Antão não abre a porta a ninguém sem espreitar primeiro à janela para ver se conhece a pessoa ou não. De facto tem um código com as vizinhas que sabem sempre se está ou não em casa, dependendo da disposição de um pedaço de cartão na janela. Explico-lhe que falámos ao telefone e a senhora desaparece para abrir a porta. Enquanto subo o primeiro vão de escadas de madeira, cujas paredes estão cobertas de quadros religiosos e de bordados, não posso deixar de pousar o pé a medo nos degraus, não fossem eles demasiado estreitos. A senhora Fernanda espera-me ao cimo das escadas, rodeada de pequenas credências enfeitadas com flores secas dentro de redomas de vidro e peças de porcelana, e conduz-me até à pequena sala onde nos sentamos. Pelo modo como usa o espaço torna-se óbvio de que é uma senhora que se basta a si própria e gosta das coisas de uma determinada maneira. Olha-me com uma certa desconfiança própria dos noventa anos. Minutos depois Teresa Sousa e uma psicóloga do Centro chegam, para assistir à entrevista. “Então o que é que as senhoras desejam de mim, digam lá”.


“Meninas como a Margarida nem sempre se encontram” assevera, “mas não estou com muita vontade de receber mais ninguém” conclui olhando para Teresa. Esta esclarece-lhe que não é por essa razão que lá estou e a senhora parece ficar desde logo mais à vontade. Explica-me que arrenda o andar de baixo, semelhante ao seu, a um casal de cor que o partilha com Margarida, que chegou depois. A ideia de se integrar no projeto partiu do filho que teve conhecimento pelo Diário de Coimbra. Daí a nada já a recebia em casa e depressa percebeu que lhe poderia ser muito útil. “Uma vez tive de ir as finanças e ela deu-me jeito nessa altura porque é despachada e está habituada à vida moderna”, recorda e afiança-me a sua satisfação por ver o jardim finalmente cultivado. “Ela estava tão convencida que em quinze dias já tínhamos couves para a sopa! Mas depois tivemos um problema com caracóis” conta, com um sorriso desconsolado.


Fernanda foi professora durante muitos anos na escola Avelar Brotero, na altura escola comercial. Dava aulas de formação feminina que incluíam caligrafia, datilografia e estenografia (escrita com símbolos), de aprendizagem obrigatória. “Antigamente era necessário saber tudo isso para a escrituração dos livros de contabilidade, escritos obrigatoriamente com sinais. Também era muito útil na Assembleia da República, para a tradução das atas. Nunca me esqueci de nada. Custa a entrar mas depois nunca esquece”. A idosa levanta-se, vai até à escrivaninha e de uma gaveta tira um caderno de uma antiga aluna, “o caderninho da pequena” como lhe chama, com escritos inclinados e desenhados com primo. “Era um ensino que preparava para a vida”, recorda com amor. Estica-nos a foto da aluna e relembra de certa vez que foi chamada à sua escola para que esta a pudesse ver antes de entrar para um exame, pois a sua presença “dava-lhe segurança”. E em vinte minutos torna-se evidente para todas o que Margarida quer dizer quando garante que “há sempre o que partilhar com a dona Fernanda”.


Esta explica que já tentou até convencer uma senhora sua vizinha, recentemente assaltada, a aderir ao projeto, sem sucesso. “Está habituada à sua independência. Já lhe disse que não lhe corta a liberdade mas não me parece desejosa de receber mesmo assim”.



Fraca divulgação






Embora o número de candidatos tenha sofrido um aumento, continua a haver mais idosos inscritos no projeto que estudantes. De facto, o caso da Margarida é prova de um aproveitamento da iniciativa por parte de não-estudantes. Segundo a mesma, isso deve-se talvez ao desejo por parte dos alunos de “conquistar autonomia” e sair da casa dos pais para experimentar viver sós. Na opinião de Daniel, muitos estudantes devem sentir-se até constrangidos em viver com idosos.

Segundo Teresa Sousa, num momento de maior crise, um projeto como este é decisivo para um estudante com pouco recursos porque "possibilita a concretização dos seus estudos", da mesma forma que garante uma companhia para o idoso, “evitando a sua entrada precoce no lar”. Os resultados até agora são, ainda assim, animadores: nenhuma queixa foi reportada a nenhuma das instituições envolvidas e a maior parte dos candidatos “beneficiou na íntegra da iniciativa, criando laços de amizade que perduraram até depois do fim do curso do estudante”, e isso, segundo Teresa Sousa, já faz a diferença.