segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

| José António Franco |

| 03 de fevereiro de 2015 |





e de repente ali estava eu vivo como nunca longe da vista
dos loucos e dos remoques das máquinas de jogos universais
das cadeiras de costas partidas dos olhares difusos dos maridos
atraiçoados pelas tenebrosas vertigens dos afectos
sem mistério nem resplendor

de repente ali estava eu como um tufão desorganizado sombrio descrente
e rancoroso esperando um momento para a confissão do pânico
de repente eu era o lado esquerdo da dúvida a sedução surpreendente da cegueira
as mãos erguidas num acto de fé numa conversa repugnante sem interlocutor

de repente quis desfiar todas as incertezas como se a crueldade fosse uma promessa de morte
eu estive morto
assim como quando não se respira mais e as igrejas são as nossas salas de visita
morto
com licença para permanecer adorado à distância de uma prece ou de uma saudação velada

e de repente descobri o carcereiro a segundos de um arrependimento
intrigado como uma vacina que mata um piano emudecido por um véu branco
a confundir as sombras da noite um fio de água entranhado nos dedos labirínticos
do silêncio como um guerreiro de indiferença em punho

pudesse eu acreditar nas palavras soltas que ansiava ouvir ciciadas pela chuva
pudesse pelo menos confiar que o ódio é apenas o universo paralelo estilha-
çado nos lábios esquivos do séquito de um cometa

atravesso de repente o segredo das quimeras urdidas em voz alta
acessórios da embriaguez de anjos inclementes
o medo que flagela a inutilidade do mito atafulha o êxtase com memórias
só depois a obsessão liberta a desobediência e a serenidade

o amor é a mais subversiva evidência humana