terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

| Fernando Coelho |

|20 de janeiro de 2015 |




O atentado ao Charlie Hebdo mostra a cara do ódio. Por que um crime contra uma pequena equipe de jornalistas? Porque os intolerantes, como os corruptos, são perdoados e tolerados na sociedade. Tolerados pela capacidade de inércia da humanidade contra os seus próprios desafetos e algozes. A Justiça não é para todos. Nunca foi. Quem mora em guetos, no Brasil ou na China, sabe disso. Quem é pobre sabe disso. Quem está do lado das minorias sabe disso. E a paz é um objeto circundante nas bolsas de valores do planeta, onde a indústria bélica se justifica, para manter a paz, sustentando a guerra. Em palavras simples, é assim que funciona. A ironia humana é a sua própria maldade e ignomínia. O destino humano e sua perfídia inexorável. Há uma ordem universal da crueldade. Basta olhar a rosa dos ventos do morticínio em todo lugar. As pessoas deixaram de ser pessoas. Em todos os recantos da terra. Os opressores, desde o seu maior e mais bárbaro apologista, Adolf Hitler, conhecem tão profundamente a fragilidade de solidariedade da alma humana, que aparecem de corpo aberto, com endereço, farda, e carteira de identidade. Expressam-se pelos canos das armas que nós mesmos fabricamos. E o encardido cinismo das facções impera. Bashar al-Assad, em 3 anos, matou quase 200 mil na Síria, até agora. As nações fizeram alguma coisa? Por que o assassinato de chargistas, artistas, jornalistas? Não se trata de uma ofensa à Imprensa, à liberdade de expressão que nós, jornalistas, defendemos com a vida, e que nos é tão cara para a hegemonia social. É mais. É uma ofensa a Deus. Ao Deus de cada um. Não ao Deus mitigado pelas religiões de oportunismo, dos templos ricos e das sacolinhas de dízimos, e das máscaras, e da ignorância da lavagem cerebral em massa. É uma ofensa ao nascimento, à origem da vida, ao hálito da sobrevivência, do milagre primordial. Uma redação. Uma reunião de pauta. Três criminosos com procuração de uma horda bárbara. E um recado: “vocês não são nada, não são ninguém, não são gente, não podem com nossa fúria demoníaca, morram!” Precisamos querer viver. E só.