terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

| Edmar Conceição |

|20 de janeiro de 2014 | 



Coimbra




Não foi difícil atravessar o Atlântico, embora tenha me despertado o desejo de confeccionar um belo inventário, coisas íntimas que gostaria, em um dia de infortúnio, seguirem um caminho diferente do habitual.

Hoje, aproveitei a pausa da chuva em Coimbra e avancei em suas ruas, acreditando que meus passos solitários trouxessem a direção mais próxima de mim. Embora a paisagem sempre sussurrasse um devir diferente, não me contive com a cantoria de um músico andarilho, trazendo-me impressões raras e íntimas.

Ele caprichava na sua modinha portuguesa com canções tristes, parecendo com a melancolia do inverno que gelava minhas faces, no ritmo exato da solidão que acompanhava o céu cinzento deste final de manhã e um vazio de mãos descobrindo o exílio.

Belas pessoas desfilavam com elegância e simpatia dentro de agasalhos bem fechados. Restava-me mergulhar nas divagações do músico, apreciando a elegante dor que saía de suas entonações, alertando o belo encontro “dos passos da noite”, uma “espada de sombra que se esguia” e insistindo que o “punhal do ciúme corta ainda dentro da bainha”...

Certa hora, uma pomba desfilou inquieta nas bordas da mesinha de bar que eu me encontrava, com seus olhos apressados, parecia me mostrar o aroma da finitude, mesmo quando a neblina fria freava minha fala.

Quando o cantador se recolheu, restaram apenas murmúrios distantes e passos como de uma menina que enfrentava a ladeira de suas dúvidas com salto alto e uma ternura que contrastava com a indiferença das escadarias.

Ainda não acostumado com os ladrilhos de Portugal, afastei-me sem direção e, mesmo estranhando o gelo nas mãos e a insistência inesperada das lágrimas, havia janelas floridas e a certeza da pontaria do verso de Fernando Pessoa, anunciando que não precisamos de esperança, mas de rodas.

Acho que o poeta tem razão, cada vez mais, navegar ficou mais do que preciso...