Ao avesso da memória
contados os dias ao avesso da memória no excesso
da palavra fez-se ao largo em desassossego
perto de chegar a algures houve um naufrágio
demasiado vivo para lhe acontecer devagar
no abandono cresceu a sombra de luz
sem aparas nem costuras nem rotas outras
que delinear apenas um barco antigo e amplo
percorre em sulcos de angustiada ventania
por que amarrar à noite o rumo dos quadrantes
sem navegar errantes praias antes de morrer
húmido de limos algas e outras invernias?
A travessia invisível dos frutos
prepara a travessia invisível dos frutos
dentro de quem nasce mesmo se nada acontece
de transparente no âmago da luz
o rumor do silêncio atravessando
a matéria com que ceifas os dias fugazes