A moça da cela
Não era uma manhã qualquer, pela primeira vez, a Cadeia Pública de Pilar me instigava. Parecia uma eternidade caprichosa a ausência de destreza do carcereiro para destravar aqueles enormes cadeados. Sequer prendi a respiração ao passar pelo corredor insalubre, como se tudo fosse parte do ritual para encontrar aquela moça descrita no mandado judicial. Consegui decorar trechos da denúncia do Ministério Público:
“Já era de madrugada, a denunciada levantou-se da cama e se dirigiu ao quintal. De cócoras, pariu seu filho, deixando-o no chão. Com um pedaço de madeira, deferiu no seu filho cinco golpes na cabeça. Por fim, jogou-o no esgoto, limpou-se e foi dormir”.
Confesso que não me penitenciava pela minha curiosidade mórbida, apoderava-me um entusiasmo indizível com a frieza do infanticídio. O vazamento na laje do presídio fez-me lembrar de Dante, ao encontrar o sétimo círculo do inferno, andando nas margens sangrentas de um poço ardente onde são castigados os homicidas. A diferença é que eu não estava buscando a bela Beatrice, cabia-me mais o papel de centauro, munido de flechas, para que a denunciada não escapasse.
Aproximei da cela com o mandado na mão, carregando com zelo aquelas palavras fortes, como se fosse o açoitador kafkiano e sua “varinha”, desnudando a meliante para aplicar o castigo: “O castigo é tão justo quanto inevitável”. Estava de fato vestido de Oficial de Justiça, até as lições da Faculdade faziam sentido, é como se espectro de Ihering sussurrasse no meu ouvido: “a luta pelo Direito é a poesia do caráter”.
Todavia, frustrou-se meu intento. Lá estava a moça, agachada, olhando, delicadamente, para o vazio. Tive a impressão que ela cantarolava uma música de ninar, fitei-a por alguns segundos, ela estava tão distante que demorou para perceber minha presença. Não trocamos uma palavra, estiquei a mão para que ela assinasse o mandado e recolhesse a sua contrafé. Quando ela, enfim, olhou-me, confidenciou lágrimas retidas e um riso discreto; fazendo-me sentir, por um instante, parte do seu horizonte.
Saí atônito da cadeia, como se lá deixasse um pedaço de mim. Condenei o meu silêncio, deveria ter dito alguma coisa, nem que fosse para parafrasear Nietzsche: “foge, minha amiga, nem que seja para dentro de tua solidão”. Pesava-me o fardo daquela pequena cela, as palavras de Gibran perseguiam-me: “E como puniríeis aqueles cujos remorsos já é mais que seu crime?”... “Seria melhor que aquele que usa sua moralidade como sua melhor roupa andasse nu”.
Nunca mais vi a moça da cela, nem imagino seu paradeiro. Hoje, nesta manhã de segunda-feira, escrevo essa crônica em minha confortável cadeira, cercado de uma biblioteca de poucas centenas de exemplares. Neste momento, ouço um ruído distante de talheres, logo aparecerá a voz materna para anunciar que o café está pronto e que falta comprar o pão; do lado oposto, sinto a pressa de Joana para ir ao trabalho através do ritmo acelerado do salto de seu sapato. Daqui a pouco, talvez antes mesmo de desejar um bom dia, tenho a ingrata missão de acordar meu filho para lembrá-lo da tarefa escolar. Engraçado, no enquadramento do meu dia-a-dia, às vezes imito o pranto e o riso daquela moça, mergulhando-me novamente na profecia de Gibran: “somos todos prisioneiros, mas as celas de uns tem janelas e as de outros não tem”.
Janeiro de 2012.
