terça-feira, 20 de janeiro de 2015

| Edmar Conceição |

|23 de dezembro de 2014 |



Seu Raulino


Devia ter uns dez anos quando entrei na biblioteca de Seu Raulino. Não conseguia fixar meu olhar em nada, aquela vastidão de livros encantava tanto que me fazia perder a direção para qualquer lugar que eu mirasse.

Minto. Lembro-me bem do seu sorriso, da voz cheia de ternura e paciência, tentando tranquilizar minha mãe, que eu poderia ficar mais um pouco e não estava ocupado. Meus primos já tinham ido ao quintal brincar com os cágados, mas resistia às advertências maternas, como se já pertencesse àquele belo terreno de letras que acabara de descobrir.

Fazia tempo que me prometia uma crônica para Seu Raulino, guardo com carinho seu livro, contendo uma bela dedicatória, feita em 21 de abril de 1986. Aprecio muito suas poesias, inquietas com a breve flor do tempo, nos disfarces e nas faces do sonho, no anseio de segurar o poema na aurora do seu nascer, quando ainda crepita a primeira labareda em nosso sangue e nervos.

Recentemente, minha madrinha (filha de Seu Raulino) presenteou-me o livro Pedras ao Infinito, muito bem escrito por Klébia Peixinho e Tito Souza, narrando à trajetória do poeta petrolinense “por convicção”, sua infância pobre no sertão baiano, a paixão pelos filhos e a esposa “Pombinha”, as cartas afetuosas que correspondia com Carlos Drummond de Andrade, a maestria dos discursos e poemas inspirados nas notícias que lia dos jornais, na bela atriz da televisão e no flagrante do cotidiano que gostava de colher por meio do costume corriqueiro de andar de ônibus pela cidade.

Houve uma época que anunciaram rumores da cheia do Rio São Francisco, havendo o risco de inundar casas ribeirinhas. Por isso, Seu Raulino e Dona Pombinha passaram alguns dias em minha casa. Não me recordo de sua passagem, porém, minha mãe disse que ele elogiava sempre o clima serrano, colhia erva-cidreira no quintal para tomar seu chazinho, arriscava também cerveja misturada com guaraná e andava pela praça com o seu guarda-sol após o almoço, seu digestivo predileto para manter o corpo elegante.

Às vezes, minha madrinha Roxane lamenta que tenha conhecido Seu Raulino apenas na infância, que ele me ajudaria muito se ainda estivesse vivo. Também lamento o desencontro, todavia, consolo-me na leitura de uma das páginas amareladas do exemplar que “herdei” da biblioteca do seu pai, quando Drummond diz que “é dentro de nós que as coisas são, ferro em brasa – o ferro de uma chave”.

Isso mesmo, como no belo poema Mãos de Seu Raulino, escrevo, neste momento, na quimera de mãos saindo “de minha visão interior”, como as mãos generosas e delicadas do poeta que, aos poucos, abre, para mim, a biblioteca da casa 927 da Rua Marechal Deodoro, cedendo sua mesa grande de cerejeira e o ruído da Olivetti, servindo-me Martini doce e a crença peregrina do poema, encorajando minhas mãos, também feita da mesma argila poética do criador quando modelou o homem, ou melhor, de quando encantou o homem.