terça-feira, 23 de dezembro de 2014

| José António Franco |

09 de dezembro de 2014







enorme é o espaço da tua voz
abundantes as recordações no espelho onde os pássaros
florescem entre os resquícios do vento em mensagens do sul

enorme é a convicção do horizonte iludindo as linhas da tarde o estremecimento
a inutilidade do olhar dos crédulos percorrendo as estranhas vielas que a cidade acolhe                         com a ternura de uma mãe catando os filhos nas soleiras
a sensatez dos adivinhos perante a morfologia resignada do esquecimento

enorme o sofrimento quando a manhã se atrasa e as nuvens param de rompante
à cabeceira dos deuses de corpo sem tempo nem emoções
o frio não chora os suplícios dos pequenos incautos nem os heróis de cada mistério

fantasmagoria de ervas como palavras desmaiadas no ventre doméstico da alucinação
enorme o movimento que te coloca no coração dos dias mais-que-perfeitos
no centro das cânticos que escavam a eternidade da alegria

que rosas meu amor perseguem o teu sorriso

enorme te quis e tu cedo encontraste as cores que as habitações respiram
enorme é a bravura frente aos vestígios dos portões
entreabertos para o piano silenciado na bruma do outro lado do gelo

enorme é a paciência dos jardins abandonados o sussurro lento dos pinheiros à mesa                          posta em explosões de rostos cândidos e magias irrepetíveis
aliterações de rumores com frutos de barro livre e tenso e decidido
enorme a tua mão que acaricia as paredes adormecidas sem rumo nem distância

enorme o sono a ressonância da sempiterna madrugada a poalha ilógica que disfarça a                       travessia da escrita nascitura

ó meu amor repara como o céu se craveja de luz para os teus olhos
e eu falo-te do voo das colinas no limite das aldeias resplandecentes recém-nascidas

sentes o ímpeto da cor ondular na antecipação do dilúvio
a sedução das asas subindo sempre na sede de outros sabores
matéria enorme de gratidão ampulhetas de águas toscas sem leito nem sílabas à medida
            da compaixão

num cerco de vidraças desmaiadas o incenso das flores esgueira-se para a quietude do                       rosto sem fadiga
há animais circunvagando a clarividência diurna a pronúncia de todos os cheiros que as                    portas antecipam
na taça da celebração as palavras estremecem como lugares sagrados onde os nossos                          corpos se recolhem

minuciosa para lá da paisagem ritual e magnífica
a tua voz vibra como um cometa espontâneo na invenção de todos os caminhos
enorme o coração que se acende para o amor todas as manhãs