enorme é o espaço da tua voz
abundantes as recordações no espelho onde os pássaros
florescem entre os resquícios do vento em mensagens do sul
enorme é a convicção do horizonte iludindo as linhas da tarde o estremecimento
a inutilidade do olhar dos crédulos percorrendo as estranhas vielas que a cidade acolhe com a ternura de uma mãe catando os filhos nas soleiras
a sensatez dos adivinhos perante a morfologia resignada do esquecimento
enorme o sofrimento quando a manhã se atrasa e as nuvens param de rompante
à cabeceira dos deuses de corpo sem tempo nem emoções
o frio não chora os suplícios dos pequenos incautos nem os heróis de cada mistério
fantasmagoria de ervas como palavras desmaiadas no ventre doméstico da alucinação
enorme o movimento que te coloca no coração dos dias mais-que-perfeitos
no centro das cânticos que escavam a eternidade da alegria
que rosas meu amor perseguem o teu sorriso
enorme te quis e tu cedo encontraste as cores que as habitações respiram
enorme é a bravura frente aos vestígios dos portões
entreabertos para o piano silenciado na bruma do outro lado do gelo
enorme é a paciência dos jardins abandonados o sussurro lento dos pinheiros à mesa posta em explosões de rostos cândidos e magias irrepetíveis
aliterações de rumores com frutos de barro livre e tenso e decidido
enorme a tua mão que acaricia as paredes adormecidas sem rumo nem distância
enorme o sono a ressonância da sempiterna madrugada a poalha ilógica que disfarça a travessia da escrita nascitura
ó meu amor repara como o céu se craveja de luz para os teus olhos
e eu falo-te do voo das colinas no limite das aldeias resplandecentes recém-nascidas
sentes o ímpeto da cor ondular na antecipação do dilúvio
a sedução das asas subindo sempre na sede de outros sabores
matéria enorme de gratidão ampulhetas de águas toscas sem leito nem sílabas à medida
da compaixão
num cerco de vidraças desmaiadas o incenso das flores esgueira-se para a quietude do rosto sem fadiga
há animais circunvagando a clarividência diurna a pronúncia de todos os cheiros que as portas antecipam
na taça da celebração as palavras estremecem como lugares sagrados onde os nossos corpos se recolhem
minuciosa para lá da paisagem ritual e magnífica
a tua voz vibra como um cometa espontâneo na invenção de todos os caminhos
enorme o coração que se acende para o amor todas as manhãs