terça-feira, 23 de dezembro de 2014

| Edmar Conceição |

09 de dezembro de 2014







Já faz tempo que fui ao teatro. Na última vez assisti a um espetáculo de dança, cheio de laranjas, folhas secas, maracatu e um dançarino que se jogava de um lado para o outro do palco, talvez a procura de si, pois o título do espetáculo chamava-se “Tu sois de onde?”.

Apesar da paixão pelo tablado, passei quase uma hora sem qualquer vislumbre. No entanto, admito que o título da dança me tocou. A cada passo, algo imigrava e emigrava dentro de mim, insistindo na mesma pergunta: de onde sou?

O erro gramatical deixava a interrogação mais complexa, sou vários...  e de diversos lugares. Passei um bom tempo para imaginar, por exemplo, de onde era aquele menino da infância, montado na sua bicicleta vermelha, prometendo cruzar a finitude nas asas do seu pedal, como se as melhores quimeras viessem dos caminhos desconhecidos, nas vielas do devir.

Também perguntava de onde eram aqueles passos noturnos que me carregavam, sem o arranque da meninice por causa do volume do tempo, mas que ainda brincava de se esquivar nos ladrilhos do cais da vida, aguardando a ventania que traz a esperança dos saveiros, guiados pela aventura da poesia marítima.

Ainda conservando o pasmo da pergunta, acomodei-me no boteco mais próximo que encontrei. Havia uma folha de papel que trazia no bolso da calça e escrevi, em vão, algumas respostas.

Tinha poucas pessoas no bar e, apesar da gentileza do garçom, fiquei impressionado com o pranto tímido que saía da garçonete no balcão. Eram lágrimas eventuais, porém, borravam sua maquiagem escura, anoitecendo ainda mais suas olheiras e as cicatrizes do céu, como se o seu subsolo emergisse sob uma tinta preta e pesada, escorrendo sobre seus olhos castanhos claros, como uma nuvem negra que cobre, aos poucos, a nudez do olhar dos amantes.

Percebi melhor a tinta da minha caneta e, ao tentar rabiscar o choro distante da garçonete, achei, nas dobras das letras que acabava de escrever, meus pedaços de lugar e que, embora havendo tanta gente dentro de mim, descobri de onde “somos eu”: as promessas da escrita, dos pedaços de qualquer lugar que permita enxurrar a tinta do verbo, como a poesia das lágrimas da vendedora, esculpindo a sua face com a aquarela de seus sonhos e que, mesmo partidos, trazia-lhe o vigor belo da noite.