28 de outubro de 2014
Vi e fotografei crianças que morreram muito novas, vi até, aquelas crianças que já nasciam mortas: morriam antes de nascer...
No sertão, estas crianças que morrem antes de nascer, ou morrem, ainda em seus primeiros dias ou nos primeiros anos de vida, são chamadas de anjos, e, são consideradas puras, e em alguns lugares, há, até, os cemitérios só para elas, os cemitérios de anjos. Pensam assim, algumas pessoas, que as almas puras destas crianças não devem se misturar com as almas impuras dos adultos...
Toda vez que retratei uma destas crianças, eu sentia um tristeza misturada com uma ternura: de ver alguém, que morria, sem ter a consciência de ter de fato existido...
Mas, confesso, nunca tive tanta pena delas... Eu sei, que elas, estas crianças, perdiam uma boa parte de suas vidas, mas também me parecia, que elas estavam protegidas, de certos tipos de vidas: como as subvidas, dos seus pais, de seus avós, por exemplo, que já nasceram e, ainda hoje nascem, escravos de uma ordem social burra, desordenada e desonesta.
Já vi, bem de perto, algumas vidas piores de que qualquer morte: pior até que as mortes prematuras...
Como todo mundo, já ouvi dizer que: “sempre vale à pena viver!”. Eu nunca consegui acreditar nisto... E como acreditar? Eu, que já cheguei tão perto e testemunhei com desgosto, condições de vida tão miseráveis, tão humilhantes!
É fácil falar de dignidade e honra quando isto nunca nos faltou: não nos falta. Quando o nosso filho (a) tem a proteção e o amparo de uma vida justa e razoável... Mas, eu já fotografei crianças que morreram de fome!
Estes anjos, estas crianças, pelo menos saíram desta vida, sem ter a triste consciência de nossa falta de amor. Estas crianças morreram inconscientes de nossa estupidez, de nossa covardia e de nossa inconsciência, tão medíocre, tão cega: tão humana...