11 de novembro de 2014
1
reconhecer a dimensão exacta de cada coisa
a profundidade ilegível do poema na sua voz de celebração
a cronologia insubmissa da noite a genuflexão das almas
urgente a emoção desgrenhada da utopia
ledas e enigmáticas como esgares nebulosos antes da procela
sob um tecto de imperfeições as palavras esgotadas e inúteis
esgueiram-se como pássaros pelos corredores amargos da impaciência
contornam a delicadeza dos sentidos com as sílabas que o silêncio reinventa
e sobrevivem à respiração dos gestos da tarde povoada de gritos de gaivotas e clamores de naufrágios sem penitência
entretanto a tua boca esquece o regresso e lentamente devolve a paisagem
tão lentamente que nenhum caminho se apaga
2
as palavras resguardam-se nas cabeleiras das cidades que não acordam nunca
ilhas como árvores fenomenais sem ossos ou gargalhadas de flores
— o pescador hesita enganado pelo tropel das águas
já sem remos já sem velas para quando o silêncio atear a escuridão
imagine-se o leito rectilíneo e imperturbável que resplandece como uma encruzilhada de corpos em espirais de azul minucioso mas casual
vislumbre estranho de um seio no desconcerto das sombras
concentremo-nos na arquitectura do esquecimento
na indolência marginal nunca definitiva
que obsessão paradoxal a ressonância do amor quotidiano
que perversão a inocência
só ao esqueleto de uma nuvem ou a uma cadeira ao suspiro de um peixe será permitido soletrar o verão a evidência da inutilidade
desequilíbrio crucial em enormes corredores amarfanhados
pelo peso das vozes da casa sem movimento
o ouvido prepara o eco no absurdo compasso dos nomes
o sonho é a página ao rés do tempo
o mar espreitando de novo por detrás do espelho que nasce
cotovelos brancos o rosto plano oscilando
eis a poesia
tudo por nada