terça-feira, 25 de novembro de 2014

| Carol Bittencourt |

11  de novembro de 2014



            
             A Menina, a Mãe e o Poeta



Hoje pela manha, ao terminar minha aula na sala do 6º ano, fui até a secretaria entregar a caderneta. Quando cheguei, encontrei a diretora conversando com o coordenador sobre uma de minhas alunas. Ela contava que a mãe dessa aluna havia lhe procurado no dia anterior, pedindo ajuda para encaminhar a filha a um psicólogo, pois, a menina “não batia muito bem das ideias”. E continuou: “dizem os mais velhos que pra confirmar se uma pessoa é certa do juízo, a gente pede pra ela pegar água na peneira. Pois bem, foi o que eu fiz: dei a peneira, mandei ela pegar água na balde e, ela foi. E o pior é que ficou tentando umas quatro vezes pra vê se conseguia”.  

Enquanto a diretora discutia com o coordenador sobre o episódio da peneira, eu fiquei desejando “encaminhar” a menina a um poeta, ao mesmo poeta que me ensinou “que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento” e, desde então, eu nunca mais saí de casa sem minha peneira...

Amanhã, antes de começar a aula, vou chamar a menina em um cantinho da sala e lhe mostrar que, dentro da bolsa, eu também carrego água na peneira. Vou lhe dizer ainda que quando estou cansada e triste, pego minha peneira e saio por aí roubando um vento, um sorriso ou um pedaço de manhã...

Quanto à mãe, ficarei fazendo minhas preces para que, assim como no belo poema de Manoel de Barros, ela possa reparar na menina com ternura e quem sabe um dia, repetindo os versos do poeta, possa até lhe dizer: “Filha, você vai carregar água na peneira a vida toda. Você vai encher os vazios com as suas peraltagens e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos”.