14 de outubro de 2014
Ao entardecer, a sombra do Flamboyant da praça principal de minha cidadela, acolhe uma brisa que sugere o sabor da leitura. Tem certas horas que não se pode esquivar das palavras, que só os olhos da poesia podem alcançar o horizonte.
Ainda nas primeiras quedas do sol, apareceu o casal de adolescentes. Sentaram próximo a mim, pouco importando com minha presença. Ela estava cabisbaixa, com os olhos combinando com o crepúsculo, caídos, quase anoitecendo. Ele tinha leveza no caminhado, mastigava goma de mascar com desdém e brincava com os cabelos dela, embaralhando seus cachos e sentimentos:
- Deixa de calundu, Neguinha! Talvez eu demore, mas volto. Pode confiar.
- Sei não... e se você conhecer alguém? Tanta coisa que a gente passou junto...
- Relaxa... quando eu voltar a gente se casa.
- Promete, amor?
- Juro. Você me espera?
- Claro. Volta logo... prometo que a gente vai fazer amor todos os dias!
Sei que não é nada delicado ouvir conversa alheia, principalmente confissões de amor. Sentia-me um impostor atento à entrega juvenil, flagrando promessas, beijos, lágrimas, lembranças e muito silêncio, principalmente quando o casal se percebia acuado pelo tempo. Estranho, as unhas do tempo embelezam, mas, também, arranham; as preces das palavras sustentam a ilusão de qualquer travessia, mas há abismos em cada silêncio, ferindo-nos frontalmente.
Faz tempo que presenciei as juras desse belo casal. Além de meia dúzia de páginas no meu bloco de anotação, eles temperaram a brisa do flamboyant, provocando-me o compromisso desta pequena crônica.
Toda vez que a lua cheia se ergue imponente, levita a sede e a saudade dos amantes. Aproveito-me dela, agora, imaginando a bela jovem, reclinando-se na sua janela florida, fisgada pela melancolia lunar que, embora carregada pela correnteza das lágrimas da demora, acredita no voo da esperança, no retorno que agoniza, mas aproxima.
No entanto, aflige-me mais o rapazola do litoral, no seu cais cheio de espera, jogando pedras na feiticeira noturna, ainda sem compreender o exílio da paixão e o preço de cada noite de amor que lhe aguarda.
Ultimamente, a Academia e o Fórum têm me tirado a poesia. Às vezes, sinto a cadeira da biblioteca com o mesmo vazio do banco da praça principal. Talvez, por isso, capricho tanto nesta penumbra, abrindo meu melhor espumante e escrevendo à moda antiga, empurrando com força as teclas da velha máquina de escrever. E quando o fôlego da escrita falta, lembro da inocência apaixonada do casal, sorvendo uma brisa que ainda não tem nome, que é pouca, mas assanha a quimera dos meus dedos.