terça-feira, 14 de outubro de 2014

| Edmar Conceição |






A primeira vez que entrei na Chácara de Abrantes, do meu Tio Edinho, fiquei enamorado com um pé de pimenta. Aquela árvore baixa e repleta de frutos pequenos e vermelhos tinha um vislumbre quase hipnótico. Minha mãe percebeu a iminência do perigo e me alertou, sem o devido cuidado com a linguagem: “Se você provar desse fruto, você vai ao outro mundo e volta!”.

Perdoo minha mãe por não saber que, desde criança, tive inclinação a ser andarilho. Ir ao outro mundo, com garantia de retorno, seria uma viagem inesquecível! Não pensei duas vezes – o fruto proibido sempre teve seus caprichos. Acreditando sempre no desvario das palavras, provei com voracidade a maior pimenta malagueta que achei. Sem conhecer Wilde já seguia seu belo aforismo: “a melhor maneira de resistir uma tentação é cedendo-lhe”.

Tive o privilégio de ter, na minha infância, dois quintais emendados, palco sublime para minhas inventividades, às vezes ganhando o doce riso de minha avó paterna por conta de meus pinotes. Também não era necessário conhecer Manoel de Barros para saber que o meu quintal era maior do que o mundo. A goiabeira era meu irmão confidente, a laje era a lua que a gente podia subir e os gravetos que achava no fundo da casa se transformavam em espadas, arcos e flechas da minha batalha eterna contra o mal.

Meu pai, às vezes, andava pelo meu mundo/quintal. Adorava quando ele exibia o pulo mortal do meu finado gato Manchinho, jogando-o para cima. Já a minha mãe era a artesã das minhas fantasias, bastava apenas ser um pouco insistente para ela providenciar meu arroubamento: a roupa do super-homem, a casinha de pano, o vinil da minha história infantil preferida, a máquina de escrever de minha prima, quando disse que queria ser poeta.

Todavia, minha mãe também tinha suas fantasias e inventividades próprias. Eu também providenciava seus pedidos, mesmo aqueles improváveis. Certa vez, já adolescente e com a libido um pouco aguçada, animei-me para ir a um baile de carnaval no Distrito de Pilar. Tive a infeliz ideia de perguntar sobre minha roupa apenas na hora exata de ir ao clube. A mãe Quezinha exibiu-me, encantada, a indumentária do Tarzan: uma tanga verde, de pelúcia, acompanhada de uma faca de madeira.

Foi inútil minha contestação – época de carnaval se usa fantasia – argumentava minha mãe. Meus dois primos vestidos de bermuda, camiseta e um demônio perverso escondido nos lábios, deram razão a engenhosidade da minha mãe. Bem, lá estava eu diante de mais de uma centena de adolescentes, o único fantasiado da festa. Era constrangedor – a tanga parecia diminuir de tamanho a cada minuto – sentia os olhos do mundo atravessados sobre mim. Entretanto, fiquei a festa toda, não podia decepcionar um investimento materno que tanto me acolheu nas minhas divagações. Acho que, às vezes, a gente pode declarar nosso amor de outras formas.


Crônica publicada no livro Iludidos, 2011