terça-feira, 8 de julho de 2014

| Edmar Conceição |





Mal o sol se espreguiçava, há poucos metros de minha residência, encontrei minha amiga Vaneide, comunicando-me, com dificuldade, que sua irmã tinha falecido nesta madrugada. Fiquei atônito, apenas pude devolver meu olhar condolente em volta dos seus olhos, bem inchados com o pesar da partida.

Sempre busquei vislumbrar o lado encantado das coisas, mesmo as que tenham um espectro que assuste. Confesso que, ultimamente, estou um pouco pessimista, sempre achei que o galo cantasse para festejar a manhã, hoje, percebo uma melancolia no seu canto, como quem anunciasse a tristeza pela noite que se esvai.

Dizem que a diferença entre um trágico e um utopista é que o primeiro cai do abismo dançando. No entanto, a morte, apesar da dor de uma despedida, renasce, em mim, mais esperança do que aflição. Já faz mais de dois anos que publiquei uma crônica sobre a morte de meu pai e ainda continuo achando que ele foi para o céu de trem, com boas doses de gargalhadas e ouvindo músicas da velha guarda que ele gostava muito.

Tive pouco contato com a Kréssia, mas como todos os filhos de Dona Rosa, é fácil descrever a leveza de um olhar tão generoso, enchendo-nos de um afeto que folheia o melhor da gente, como uma brisa noturna que nos faz parar, almejando que ela nos toque por inteiro.

Ontem era aniversário da Kressinha, como chamava sua irmã. Foram poucos anos, mas de incontáveis risos, sempre havia uma piada na espreita, principalmente quando não se esperava. Joana me contou que, mesmo com dores insuportáveis de cabeça e sem enxergar quase nada, não faltavam pilhérias, até mesmo do próprio infortúnio.

Mário Quintana diz que “no fim tu hás de ver que as coisas leves são as únicas que o vento não conseguiu levar”. Concordo, nem a severidade do tempo levará essa brisa Kréssia, este sopro tão suave, trazendo o acalanto de quem vive colhendo pétalas de risos e sonhos, mesmo em dias quentes e tristes como este.

29 de outubro de 2013.