Estou diante de um lindo baú que ganhei na noite do meu último aniversário. Hoje quero enchê-lo com algumas intimidades, desenhos e escritos meus. Certo dia, alguém me disse que eu parecia o menino que carregava água na peneira, ilustrado na poesia de Manoel de Barros. Cativou-me tanto a comparação que, agora, enquanto eu preencho o meu baú com papéis avulsos, vou compondo a minha crônica, tentando fazer “peraltagens com as palavras”.
Minha arca não é tão grande, é difícil selecionar tanta coisa que guardei. Meus papéis datilografados trazem-me tantas recordações: crônicas de saudades e de exílio; versos com o desespero inútil de regredir ao tempo por causa de uma noite que já se foi; vislumbres poéticos, manchados de vinho, na busca da brisa e da brasa das praias desertas. Apesar do amarelado de cada papel, ainda acho que minha escrita tem a mesma argila de antes. Está certo, Gabriel García Márquez, o mundo avança, “mas dando voltas ao redor do sol”.
Não posso deixar de colocar no baú o poema e o desenho de minha avó Indalice, ainda não terminados; o esboço de uma cartinha, impressa com letras verdes e cheias de saudade, que fiz para Joana quando éramos namorados; o rascunho do curta-metragem A Corda que prometi a Marcos Cesário e nunca cumpri com o trato. Também vou colocar uma página esquecida e escrita a lápis de alguns títulos de crônicas que quis um dia fazer: “Meus dezessete anos”, “Seu Raulino”, “A Bala Juquinha”, “A mulata no cio” e “Uma Ode as mulheres que riem e falam baixinho”. Quem sabe um dia eu me distraia, abra o baú e cumpra o meu intento, Wilde diz que “todas as obras de arte são o cumprimento de uma profecia”.
Agrada-me muito ver os rascunhos das minhas dramaturgias, da Via Sacra que me fez ler tantas vezes o Evangelho e me convencer que Cristo, muitas vezes, também carregava água na peneira, principalmente quando criava parábolas. É, Naldimar, parceiro de tantos espetáculos, fica tão difícil a vida sem o vinho de Dionísio.
Divirto-me com meus desenhos adolescentes, parecem mais caricaturas. Vou guardar no baú um desenho que fiz de Vô Totonho com Tio Salviano. Escolhi, também, algumas fotografias, não aquelas cheias de poses, mas as inesperadas que narram sempre alguma coisa, como esta que flagrou meu pai, bebendo sua cervejinha, “enchendo a paciência” de Tia Roxane com suas piadas repetidas. E, falando em fotografias, há de ter um punhado de fotos de Marcos Cesário, inclusive a do Ipê roxo da Puxadeira, lembrando-nos que, quando menos se imagina, é de um galho triste que brota a primavera.
Meu baú mais parece um caldeirão de feitiço, invisto no tempero do guisado das minhas memórias. Quintana diz que “a imaginação é a memória que enlouqueceu”, logo, despejo pertences íntimos, neste pequeno vale secreto: uma moeda antiga de mil réis que me trouxe a sorte dos andarilhos, a tesourinha enferrujada que meu pai tinha tanto ciúme, o relógio de bolso, quebrado, de meu avô paterno que não o conheci, uma passagem de ônibus ainda úmida de lágrimas de adeus e um trevo de quatro folhas que meu filho achou no quintal. Também colocarei o encarte do filme O Carteiro e o Poeta, para que eu nunca esqueça a força das ondas da poesia, sempre capaz de trazer os olhos da mulher amada para dentro de minhas margens.
Empolgo-me com o esmero de meus catados, tecendo tiras poéticas, escritas e recortadas com o próprio punho. Assim, quem folhear minhas fendas, ouvirá o grito de Antígona, pois “não nasci ara partilhar de ódios, mas somente de amor”; brincará com os vaga-lumes de Manoel de Barros que “driblam as trevas”; saberá que me perco dentro de mim, pois sou labirinto como Mário de Sá Carneiro; que sirva de alerta a frase de Nelson Rodrigues, pois “toda coerência é, no mínimo, suspeita”; rirá com as pilhérias machadianas achadas por Rubem Braga: “loteria é como mulher, pode acabar cedendo um dia”.
Embora já repleto de papeis avulsos, ainda há fragmentos de mim espalhados como se o espelho de minhas querências se quebrasse em cacos poéticos, cabendo-me colhê-los a cada passo que me lanço, mesmo que eu corte meus dedos frágeis nos pedaços mais afiados. Não me importo com a dor da escrita, pois, da mesma forma que o menino que carregava água na peneira, contento-me com a sina de encher meus vazios, como nessas minhas peraltagens escondidas neste baú, pois, quem sabe, “algumas pessoas”, também me amem pelos meus “despropósitos”.
Agosto de 2012