Nasce um olhar
Hoje meus olhos estão cansados. Tentei deitá-los por um tempo na escuridão do sono, mas a insônia logo me confirmou que não ajudaria a descansá-los. Essa exaustão não nasceu de uma paisagem qualquer, meus olhos não estão cansados da luz do sol ou da lâmpada, mas de outro olhar. O que talvez possa me parecer mais confuso é saber que esse olhar não pertence a ninguém, é meu.
Frequentemente ao mudarmos de opinião a respeito do mundo, dizemos: meu olhar mudou; e mudamos o olhar a respeito da política, da moda, da religião e do clima... Mas, não é exatamente isso o que sinto.
É verdade que o meu olhar não é mais o mesmo, mas sinto como se esse olhar tivesse morrido dentro dos meus olhos para dar à luz outro olhar. Se for uma verdade incontestável essa de que o olhar apenas se modifica, então direi que me sinto como uma borboleta que, mesmo já tendo partido o casulo, demora ainda algum tempo até conseguir trocá-lo pelo primeiro voo.