terça-feira, 27 de maio de 2014

| Edmar Conceição |

13 de maio de 2014




- O ciúme lançou sua flecha preta...
Foi com esse verso de Caetano Veloso que um defensor renomado iniciou sua tese em um Júri Popular, tentando justificar mais de dez punhaladas que o marido, dominado pela “monstruosa sombra do ciúme”, cometera a sua esposa que dançava com um estranho.

Embora o meu poeta preferido, Vinícius de Moraes, tenha dito que “o ciúme é o perfume do amor”, prefiro Shakespeare na deixa de Otelo: “o ciúme é um monstro de olhos verdes”. O próprio mouro, nas suas últimas palavras, antes de matar sua esposa e de se suicidar, confessou que seu pecado foi amar sem tino, amar demais.

O russo Tolstói também caprichou no suicídio da bela personagem Ana Karênina. Ela se jogou no meio do trem, castigando seu amante que a enciumava e tentando se livrar de tudo, até dela mesma.

Recentemente perdi um amigo, despediu-se da vida sufocado por um nó bem amarrado na laje de sua casa. Li o bilhete que ele deixou para a família, pedindo perdão a todos e anunciando que não aguentava mais viver um cotidiano sem fôlego.

Criaram-se várias teorias para explicar seu suicídio: “Ele não aguentou tanta traição da mulher”; “Tinha muitas dívidas no trabalho”; “A pressão da sociedade e da família era grande para que ele largasse a esposa”. No entanto, todos reclamavam de sua “cabeça fraca”, da sua “fragilidade”, um “egoísta” que “não pensou nos filhos”.

No cortejo fúnebre, muitas pessoas bateram palmas bem exaltadas. Um senhor, bem atônito com a saudação, lamentou indignado, como se fosse grande o pesar do ato do falecido, sendo absurda qualquer reverência.

Meu tio Beguinha, que se sentia sempre perseguido, também se refugiou num forte laço de uma corda de sisal pendurado em um galho de goiabeira. Foi um velório bem triste, tentei conformar várias vezes minhas tias, mas elas disseram que o caso dele era grave, que não tem descanso quem faz essas “coisas feias”.

Quando li A Divina Comédia de Dante, fiquei impressionado com o castigo no inferno dado aos suicidas, transformados em árvores cuja fronde serve de pasto para as harpias, provocando uma dor eterna, pois, no dia do juízo final, os enforcados irão procurar seus corpos sem poder revesti-los novamente, pois em vida rejeitaram.

Embora nosso ordenamento jurídico proíba o suicídio, por motivos óbvios, só pode haver uma sanção penal para quem induz, instiga ou auxilia alguém a se matar. Estou nos últimos semestres do Curso de Direito, descarto qualquer possibilidade de advogar, mas, pelo menos, nesta crônica, assalta-me uma vontade estranha de defender quem, descontente com a travessia da vida, recusa o próprio horizonte.

Acho que não é o ciúme que lança as flechas, mas a paixão. É ela que também perfuma não só o amor, mas o desejo pela vida. Quando ela nos falta, seja por que costumamos usar um escudo maior do que nós, seja por que ela nos erra e deixa de nos atormentar, esvazia nossa sede e muitas coisas deixam de ter sentido, inclusive seguir em frente.

Olhos bonitos o de Dona Ana, funcionária do Fórum onde trabalho, que repetiu várias vezes que meu amigo teve uma vida feliz, estava tão bonito no caixão, quase sorrindo. O padre, na missa do velório, em sua homilia, disse que Deus perdoa qualquer pecado, inclusive o suicídio, pelos méritos da sua paixão e da sua própria morte. Verdade, padre, mesmo sendo por motivos diferentes, Deus escolheu morrer e com uma paixão intensa.

Certo dia, alguém me disse que a vida, às vezes, sai cara. Millôr Fernandes disse que “chama-se herói um sujeito que não teve tempo de fugir”. Não tenho coragem e nem motivo para o suicídio, mas confesso que me agrada quando o laço da poesia me sai caro, mesmo quando me sufoco em cada palavra que me penduro.

Termino estra crônica na travessia entre Petrolina e Juazeiro, a “flor do Chico” que Caetano Veloso tão bem cantou. No entanto, apego-me a outro verso: “tudo é perda, tudo quer buscar...”. Confio no teu sorriso, que o céu lhe seja outro, meu amigo!