18 de março de 2014
Eu já estava deitada, quase dormindo, quando o celular tocou, mas, o som da voz dele despertou tanta coisa dentro de mim que quase não consegui responder quando ele me perguntou como eu estava. Sem saber ao certo o que falar, disse que a semana tinha sido cansativa, mas que eu estava bem. Ele sorriu e falou que acabara de chegar de uma viagem e que tinha uma encomenda para me entregar, que, por acaso, estava passando perto de casa e se eu quisesse poderia me entregar ainda naquela noite. Eu disse que sim, e ele tocou tão rápido o interfone que quase não deu tempo ajeitar o cabelo, e, mesmo despenteada e com a roupa amassada, acendi a luz do corredor e caminhei em direção ao meu passado...
Ele já estava em pé, encostado ao portão; nas mãos segurava um pequeno embrulho e no rosto, aquele sorriso nervoso que eu bem conhecia. Me abraçou, fez dois ou três comentários sobre a viagem, me entregou o embrulho e se despediu. Ainda confusa, eu permaneci ali, e antes de pensar em qualquer outra coisa, aquele cheiro de chocolate tomou conta de todos os meus sentidos; era um cheiro conhecido e bom, um cheiro que há muito tempo eu não sentia, e logo me lembrei de quando viajávamos juntos e daquela pequena cidade e da pequena lanchonete que era parada obrigatória.
O dono da lanchonete, aquele senhor meigo e simpático, sempre que nos avistava, partia um pedaço do bolo de chocolate que, com uma timidez mal contida, ele sabia que era o melhor bolo de chocolate da cidade. Já faz alguns anos que eu não volto lá, mas a lembrança é tão próxima quanto aquele pequeno embrulho em minhas mãos. Antes de abrir o embrulho, li o bilhete que o acompanhava: “Espero que você ainda goste do melhor bolo de chocolate da cidade, um beijo”.
Eu sei que dizem por aí que a saudade tem um gosto amargo e, na maioria das vezes, tem. Mas eu posso dizer que hoje, que pelo menos esta noite, a saudade tem gosto de bolo chocolate com recheio de coco... Eu provei...