terça-feira, 1 de abril de 2014

| João Manuel Ribeiro |

18 de março de 2014






1.

            Depois de muitos mosquitos por cordas, o jovem sargento chegou a casa do diabo. Apesar da valentia que o levava a tão estranho lugar, mal se viu lá, achou por bem esconder-se no forno vazio e esperar que aparecesse o anfitrião para lhe mostrar ao que vinha. Assim fez.
            – Seja bem aparecido! – disse uma voz.

            – Lindo rapaz! Se o meu filho te vir, estás em maus lençóis… Ao que vens?

            – E quem quer saber? – perguntou o sargento, entendendo que o lugar e a situação não era para conversa fiada.

            – Não te disse já? Sou a mãe do diabo – respondeu, escondendo um sorriso carregado de troça.

            – Então é com o seu filho que quero falar.

            – E o que lhe queres? Olha que ele não é de falinhas mansas. Se aqui te vê, nem tido nem achado, estás feito ao bife. Prepara-te para dar o couro às varas…

            – Tenho de levar uns anéis… – respondeu o sargento, fazendo-se desentendido.

            – Ah! Os anéis! – suspirou a velha. – E porque tens de os levar?– É uma longa história…

            – Conta! Conta! Eu gosto de histórias! E se a tua for boa, pode ser que me meta no assunto que aqui te traz como piolho em costura e te dê uma mãozinha.
Não apetecia ao sargento contar à mãe do diabo a razão da chegada ao Inferno, mas, já que ali estava e ela insistia, não tinha nada a perder.





2.
            Então contou:
      – Finda a guerra, regressei ao meu país e como a única arte que tinha aprendido era a de guerrear, andei dias e dias aos grilos como a raposa, às moscas, com a sela na barriga, a apanhar pés de burro e trapos com um gancho, tecendo avenças com o tempo. Certa noite, numa taverna, andando eu com um olho no burro e outro no cigano e sabendo que, às vezes, de toca ruim sai bom coelho, travei amizade com um mercador que me contratou como seu empregado. O meu trabalho seria o de zelar pela segurança da sua casa e da sua família.
      Acontece que o mercador tinha duas filhas lindas de morrer e eu logo me apaixonei pela mais nova. Dessa paixão dei conhecimento ao mercador, uma vez que o homem era flor que se cheire e muito desconfiado, gabando-se de que nunca ninguém lhe tinha feito o ninho atrás da orelha, e sobretudo não queria deixar escorregar as filhas para mãos alheias. Acertámos que haveria casamento.            O caso complicou-se quando, certa ocasião, veio àquela terra uma companhia de teatro. As filhas do mercador - Aqui d’el rei! - queriam a toda a força aproveitar a oportunidade para cirandar por caminhos alheios. Pediram-me para que eu falasse com o pai e obtivesse dele licença para as levar e acompanhar ao teatro. O mercador não gostou da ideia, estrebuchou, vociferou, mas acabou para dar o seu consentimento na condição de que ao bater a última badalada da meia-noite eu lhe entregasse as filhas.
    Empenhei as barbas! Seria dito e feito! – pensei. Certo, certo é que, ao aproximar-se a meia-noite, quando quis fazer regressar as filhas do homem, elas resistiam:
        – Mais um bocadinho! Mais um bocadinho! – dizia uma.
    – Deve estar perto do fim. Onde já se viu ir ao teatro e não esperar pelo desenlace final? – dizia a outra.
       Pede aqui, pede ali, – eu não quis ser desmancha-prazeres, mas logo vi que ia ter um lindo enterro –, quando nos pusemos a caminho de casa as badaladas da meia-noite já se tinham finado.
     Quando chegamos, o mercador esperava-nos e foi em mim que descarregou toda a sua fúria:
       – Não foi capaz de dar cumprimento a uma ordem tão clara e simples? É assim que pretende levar a minha filha ao altar?
     Eu bem procurei justificar, argumentar, mostrar por “a” mais “b” que o facto não era assim tão grave, que se estava a fazer uma tempestade num copo de água…
      Água vai, água vem, o mercador mandou-me à fava enquanto a ervilha enche, com o seguinte recado:
     – Trate de arranjar as suas coisas e pôr-se a mexer. Não é digno de ficar debaixo do meu tecto nem mais uma noite sequer… Ainda está para nascer quem me coma as papas na cabeça.
     Ainda tentei um último argumento, escarrando sangue:
  – Oh, senhor, por coisa tão pouca?! E quando estava prestes a juntar os trapinhos com a sua filha?!
   – Não há mas nem meio mas. Ou melhor... – e fez uma pausa pensativa. – Há uma única maneira de o readmitir na minha casa e de o autorizar a casar com a minha filha…
    – Qual? Qual? – perguntei desabrido.
    – Vá ao inferno e traga-me os três anéis que o diabo tem no corpo, dois debaixo dos braços e um na testa – precisou.





3.
      – Esta é a razão por que aqui me encontro – disse o sargento à velha, mãe do diabo.
      – Maldito mercador! – sentenciou a velha, claramente tocada por tal história de amor. – Anda o meu filho a tentar e a castigar tanta gente boa e desatento de acções e intenções tão más como as desse desgraçado mercador.
       A história do sargento tinha conquistado o coração da mãe do diabo.
    – E como conseguiste chegar até aqui? – perguntou a velha. – Não é fácil chegar aqui sem o desejar ardentemente…
       Muitos o tentam e não conseguem.
      – Na verdade, eu não o desejei, foi-me imposto. Não pela vontade e maldade do mercador, mas pelo amor que me une à sua filha e pela coragem que a condição de militar me impôs.
     – Mas como chegaste aqui? – insistiu a mãe do diabo. – Conta! Conta!





4. 
              O sargento contou:
         – Primeiro pensei que a proposta do mercador era puxar leite em cabra morta. Como saber o caminho para um lugar a que ninguém tinha ido e regressado para contar como era? Mesmo encontrando o diabo, como o reconhecer? Finalmente, porque razão teria o diabo três anéis colocados em lugares tão estranhos? Tais perguntas aconselhavam-me a não embarcar em canoa furada, mas o coração apertava-se-me e o amor reclamava ousadia e empenho.
        Ocupado com estes pensamentos e estas dúvidas, escrevi um edital onde anunciava:
         – “Se alguém quiser alguma coisa para o inferno, amanhã parte mensageiro”.           O edital correu de boca em boca e eu depressa me vi metido em apuros, preso e levado à presença do rei que, temendo fazer figura de tolo, me perguntou:
         – Pode dizer-me como é que se vai para o inferno?
        – Ainda não sei, majestade – respondi com sinceridade. – Ando à procura do caminho e tenciono encontrá-lo, dê por onde der.
       – Pois bem – disse o rei –, se encontrares o diabo pergunta-lhe por um valioso anel que eu perdi e que muito desgostoso me deixa.

        Outro rei, em outro reino, sabendo das minhas declaradas intenções, tinha também um recado para o inferno:
      – Tenho uma filha roída até aos ossos por doença maligna e ninguém lhe acerta com o mal. Já que ao inferno vais, trata de saber onde e como encontrar saúde para a minha princesa.

         De novo me meti ao caminho e, depois de muito andarilhar por lugares onde o diabo perdeu as botas – perdão! –, fui dar a uma encruzilhada de caminhos: um com pegadas de gente e outro com pegadas de ovelhas. A hora não era de desplantes: não lembraria ao Menino Jesus perseguir ovelhas. Segui as pegadas de gente e nesse caminho encontrei um velho eremita de longas e fartas barbas brancas, em oração. Ao ver-me, o homem de Deus, sem o querer, abriu-me as cancelas do caminho para aqui:
      – Ainda bem que vieste por este caminho, rapaz. O outro é o caminho para o inferno!
      – Oh, senhor! Faz tanto tempo que persigo esse caminho!
       O eremita estranhou as minhas palavras, mas depois de lhe contar a minha história de amor e a sua rota de desventuras, o velho, alisando as barbas, condescendeu em receitar-me os passos a seguir:
     – Se tens de ir ao inferno, vai. Leva estas contas porque para lá chegares tens de passar um rio largo e escuro e terá de ser um pássaro gigante a levar-te para o outro lado. Quando ele quiser afundar-te no rio – e não duvides que tentará fazê-lo – atira-lhe as contas ao pescoço. Depois disso não sei o que mais te sucederá.
         Foi assim que aqui cheguei – disse o sargento à mãe do diabo. – E agora pode ajudar-me? Pode saber do seu filho as perguntas de que trago encomenda?



5.

         Quando o sargento acabou de contar as agruras – melhor seria dizer diabruras – do seu caminho, diante do rosto emudecido da velha – diabo com cara de gente –, ficou com a impressão de que tinha puxado corda de cabra e que não conseguira levar a água ao seu moinho. Mas não! Tinha tocado antes na corda sensível do coração de mãe, ainda que mãe do diabo.

             A velha mãe decidiu fazer vista grossa aos procedimentos habituais de diabo e abrir uma excepção. Ia fazer o diabo a quatro e virar o feitiço contra o feiticeiro. Por fás ou por nefas! Sem revelar as suas intenções, escondeu o rapaz e esperou que o filho regressasse do outro lado.



6.
              Quando o diabo chegou, deitava faíscas pelos olhos. Tinha tentado apanhar a alma de um velho cura e não o conseguira. Vinha necessitado de descanso e sopas. A velha mãe diabo ofereceu-lhe o colo e o diabo adormeceu. Então, fazendo uso da sua manha de unhas, a velha arrancou o anel que o filho tinha debaixo do braço. O diabo acordou e gritou, furibundo:
                    – Que é isto, minha mãe?
                   – Nada, filho! Passei pelas brasas e dei uma turra em cima do teu braço – justificou a velha. – Estava a sonhar com aquele rei que perdeu o anel e nunca mais o achou.
              – Ah, esse sonho! O anel está debaixo de uma laje, junto ao repuxo do jardim.
                 De novo o diabo se deixou cair no sono, aconchegado pelo aconchego da sua progenitora. E novamente a velha, sorrateira, lhe arrancou o segundo anel.
                 O diabo acordou incomodado e começou a sentir-se pior que estragado. A velha amansou-o:
                – Tem paciência, filho! Deixei-me dormir outra vez. Estava a sonhar com a filha daquele rei que ainda nenhum médico conseguiu curar.
         – A doença dela é o sapo-sapão que está metido no colchão – disse secamente.
             Voltou o diabo a cair no sono. Arrancar o anel da testa ia ser o cabo dos trabalhos! – pensou a velha diabo. Mas ainda estava para nascer quem lhe ganhasse em artimanhas.
        A velha arrancou o anel da testa com um afiado punhal, habilmente manejado.
             O diabo, transido de dor, armou um escarcéu e pôs-se a mexer para outro lado, pensando que a mãe lhe queria ir ao fagote e lhe estava a dar nas eivas.
            A velha diabo, vendo o filho pelas costas e sabendo que o sargento tinha visto e ouvido tudo o que se passara, chamou o pássaro que o carregou e o fez chegar de novo a este lado do mundo.


7.
              O sargento, que tinha memória de elefante, e antes que fosse tarde – não vá o diabo tecê-las, pensou – entregou as contas ao ermitão. Não sem antes lhe dizer enigmaticamente:
             – O diabo não é tão feio como o pintam! Pelo menos a mãe do diabo não o é!
           Dali foi ter com o rei que tinha perdido o anel, dizendo-lhe onde a jóia se encontrava, recebendo por isso uma generosa oferta de dinheiro. O sargento, retribuindo a troça com que fora brindado na sua primeira visita, disse, ao despedir-se:
           – Vão-se os anéis e ficam-se os dedos…
            Em outro reino esperava-o a princesa que há muito se encontrava com os pés para a cova, entre a cruz e a caldeirinha. Retirado do colchão o sapo-sapão, a menina recuperou uma saúde de ferro. O rei, seu pai, como paga de favor inigualável, disse-lhe:
          – Pede o que quiseres e dar-to-ei…
       – Vossa Majestade, dinheiro não me falta! – informou. – Quero que Vossa Majestade me dê o seu poder por uma dúzia de dias.
           Com esta não esperava o rei, mas não querendo faltar à palavra dada, anuiu.          A todos os cantos e recantos do reino foi levada a notícia de que, durante doze dias, o rei seria o homem que devolvera a saúde à princesa.
        O sargento dirigiu-se á aldeia do mercador, mandando que dentro de meia hora este viesse, sem falta, à sua presença.
       – Meia hora! – precisou aos mensageiros encarregados de lhe fazer chegar a ordem.
          Quando o mercador chegou à presença do sargento, feito rei, já tinha passado mais de uma hora.
       – Podia mandá-lo matar! Desobedeceu-me descaradamente! Veio mais de meia hora atrasado…
      O mercador, de crista baixa, visivelmente envergonhado, balbuciou:
       – Oh, senhor, não me demorei por minha vontade!
      – E porque não soube desculpar, em tempos, a um pobre homem, expulsando-o de sua casa e da vida da sua filha?
         O mercador reconheceu então o sargento, o antigo noivo da sua filha e, não se aguentando das canetas, prostrou-se no chão, revelando que sempre tinha chorado o seu erro e sempre tentara emendar a mão.
        O sargento entregou-lhe os anéis do diabo e nesse mesmo dia, sendo ainda rei, casou com a filha mais nova do mercador, por quem tinha metido um pé no inferno e sofrido tantas diabruras por amor.