terça-feira, 4 de março de 2014

| João Manuel Ribeiro |

18 de fevereiro de 2014






Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Natália Correia (in A defesa do Poeta)





[1]
O poeta teme as desavenças das palavras
com as veias entupidas da razão. Escreve
o desalinho simétrico dos versos arqueados.
Escreve com fogo. Escreve com água.
O poeta produz o poema nos interstícios
da respiração, muito antes do texto.


[2]
O poeta alude à metáfora inevitável.
Hiperboliza as sílabas, faúlhas de sentido.
Remete para o curso violento da brancura
na página. Algures, o poema, semanticamente
agressivo, calará o leitor: exata exegese.


[3]
O poeta verá o poema ser mastigado,
adulterado pela saliva ázima dos dias.
Persistirá o trabalho de exatidão em redor
da totalidade que o poema reclama.
Abençoada seja a técnica iniludível do silêncio
sobre o corpo estirado do poema, ao sol.