21 de janeiro de 2014
Da árvore do meio do jardim
Fazes-me falta:
o sangue pula nas veias
quando despojas o olhar das mãos
num tear há muito inabitado
na península triangular da boca.
Aceitas o trepar das buganvílias
muito lavradas por charruas mínimas.
Piso o mosto da loucura
a descompassar a respiração
quando sepultas o coração rebelde.
Nas minhas mãos cinzeladas
podes fazer dormir. A alma muito aberta,
com dolorosíssima vontade de permanecer
límpida e rasa de alegria,
como uma sarça ardente
no meio do jardim.
Do desalinho
Por entre os braços
crescemos
como videiras,
cercados de coração,
pele, cabelos
e romarias de mãos.
As raízes mingam do chão
e alongam-se pelos olhos
como cachos de alegria.
Dentro da casa
aprendemos
a circulação dos ciclones,
o exato trabalho
de exilar na garganta
a acústica do vento
que estilhaça a ausência
como chuva miudinha
entre as pernas do poema.
No interior do outro
sangramos.
As intempéries assinaladas
com facas mordeduras e salivas.
O lugar onde a vida
inexoravelmente se esvai
e se reconstrói no exercício
de morrer em desalinho.