04 de fevereiro de 2014
Sinto uma vontade estranha de parar de escrever e fazer um discurso neste Salão do Júri. Talvez um belo discurso, aproveitando-me do silêncio deste pequeno vão, com suas cadeiras vazias e enfileiradas, como se estivessem aguardando a minha voz, mesmo que saia trêmula de tão indecisa.
A penumbra listrada, por causa das persianas das janelas, também me encoraja a dedicar-me à oratória, como se pudesse proteger e guardar, em segredo, minhas divagações. Encontro-me sentado na cadeira confortável do “Douto” Promotor de Justiça, daqui saíram tantas acusações, com suas réplicas, clamando aos jurados uma condenação severa para quem afronta a segurança e a paz social, inclusive a dos filhos dos jurados, dissecando e colorindo cada perfuração da vítima, não esquecendo a frieza das emboscadas e a futilidade de quem tenta ou mata por prazer.
Acho que à minha generosidade caberia mais o papel de defensor. É nessa cadeira, bem à minha esquerda, que costumo testemunhar palavras, mais berros do que palavras, e algumas gotas de lágrimas encomendadas, suplicando aos jurados que não carreguem o fardo do castigo injusto, que a noite não lhe perturbe quando repousarem no “travesseiro de suas consciências”. Há de conceder o perdão de quem não merece uma pena tão ardil, de quem apenas defendeu sua honra e sua integridade física, açoitado por uma injusta agressão ou na inconstância cega de quem age emocionado.
Na verdade, não quero defender, julgar ou acusar ninguém, muito menos quero o assento do réu, localizado à minha frente, apesar de, muitas vezes, aceitar cabisbaixo alguns pares de algemas.
Não caberia no meu discurso teses inspiradas por códigos extensos, nem qualquer sermão engravatado de ética. Falaria apenas bobagens meigas, palavras tão despretensiosas que não caberiam nelas qualquer toga, como quem fala encantado no colo da sua amada, rindo e confessando parte dos seus sonhos impossíveis.
Não sei... talvez eu nem precisasse falar nada, apenas sentindo uma vontade estranha de fazer um discurso, desses belos discursos que ficam perambulando dentro da gente e brilhando nossos olhos, como os doces pecados da infância, esticando a sombra fresca da mangueira, sem culpa ou denúncia, sem anjos ou demônios, como se fôssemos deuses dos nossos próprios quintais.