sábado, 4 de janeiro de 2014

| José António Franco |





o sol nascia ali ao lado

sem rosto o homem saiu de casa e deixou-se engolir pelos passos adormecidos da multidão

por toda a parte o braços esquecidos no torpor do caminho cinzento sem princípio nem fim

era uma jornada sem pontos de referência sem palavras de saudação sem carinho nem desejo

sem rosto o homem reparou nas mãos que marchavam à sua frente e também do lado esquerdo e do direito e atrás de si e só então descobriu que os companheiros de viagem também não tinham rosto

na mesma cadência abúlica a monotonia ia derramando a sua descolorida sombra pelas ruas e pelas calçadas num tropel constante que nascia sempre com a manhã igual ela própria a todas as outras manhãs

a cidade despertava lenta e mecanicamente e os passos alongavam-se com a experiência de todos os dias do ano inalteráveis sem memória sem vontade e sem calor

sem rosto o homem marchava compassadamente como tinha aprendido sem rosto o homem não hesitava como tinha sido ensinado sem rosto o homem não parava porque lhe tinha sido dito que nunca parasse sem rosto o homem não pensava porque para a monotonia continuar doce era necessário não pensar nunca

toda a cidade se alagou de braços sem rosto pela primeira vez nesse dia exatamente à mesma hora do anterior um par de olhos espreitou minuciosamente lá do alto

foi então que aconteceu

o homem sem rosto de repente estacou com um grito que aterrou a cidade e imediatamente outros corpos sem rosto à sua volta estacaram com idêntica convicção

uma mancha de passos disformes continua a mastigar as cinzas do tempo pelas ruas da cidade mas muitos ficaram por ali mesmo descobrindo-se uns aos outros enquanto o sol lhes restituía os rostos e dos olhos irrompia o fulgor da vontade

e aqueles olhos que minunciosamente espreitavam lá do alto vociferaram e logo várias legiões de anjos apareceram poderosos e descontentes mas o homem que tinha parado não se moveu e à sua volta juntaram-se os muitos companheiros igualmente ávidos de um outro caminho

e das tantas coisas que depois aconteceram nem notícia vou dar que esta recordação profética não pode transformar-se em pesadelo