sábado, 4 de janeiro de 2014

| José António Franco |





um maltrapilho ousou levantar a cabeça e logo uma rajada de vento lhe levou o chapéu e o risco do penteado é que o danado do vento tinha mau feitio e sempre que um maltrapilho ousava levantar a cabeça sem que para tal tivesse adquirido a necessária autorização pumba ficava logo sem chapéu e sem penteado

um dia um outro maltrapilho que vinha de outras paragens resolveu levantar a cabeça e andar despenteado e todas as pessoas troçaram dele e até lhe chegaram a roupa ao pêlo por ele não usar chapéu e andar com os cabelos naquele chocante desalinho mas o maltrapilho de outras paragens não se incomodou nada com isso e vivia tão feliz tão feliz que as pessoas começaram a sentir-se tão perturbadas que decidiram mesmo expulsá-lo da comunidade que leviandades daquelas eram heresias que não deviam ser toleradas

o maltrapilho é que nem esperou e partiu de vez mas o vento não ficou nada satisfeito com aquela rebeldia e de ferido no orgulho do seu poderoso sopro nunca mais levantou chapéus e despenteou fosse quem fosse de tal modo que até as pessoas começaram a mostrar sinais de grande infelicidade provocada pela falta da corrente de ar

entretanto apareceu um trovão na cidade decidido a assentar arraiais e a fazer carreira e para tal deliberou com base em grandes análises e estudos profundos que cada vez que as pessoas fizessem soar os sapatos nos passeios ele ribombaria pelos campos e pelas calçadas e as pessoas começaram então a caminhar descalças porque doutro modo ficariam com a cabeça cheia de trovões pois quem o inimigo poupa nas mãos lhe morre

a moral desta história não é lá muito suculenta mas como também não é para comer não faz mal e a história acaba aqui