domingo, 5 de janeiro de 2014

| João Manuel Ribeiro |





Caligrafia Invisível

Confirmo que as estações se vergam ao peso dos versos,no reboliço das palavras ventosas, a par das interjeições.Subsiste uma caligrafia invisível parada na nervurados dias, ancorada em textos públicos, em bandopelos olhos das pessoas, intimando-as a ler o desejona ondulação fugaz dos passos, desavindos de si.Reincidente como a chuva em declive, a epopeia da comunicação silencia a voz iniludível do silêncio, sem cruzar os braços. Calam-se os ritmos surdosdas casas em surdina correndo para fora de si.Dir-se-ia que são barcos ancorados em poemas verdesou nuvens de granito adensando-se na página.Reitero: o poema é uma intempérie de desejos,uma irrupção de vozes e uma inenarrável ventaniaem redor das pedras sobre as quais (d)escrevo os dias. 


Terrorista inviável

Sacode-me o desejo irreprimível de te confessara minha condição de terrorista inviável. Vivo pertodo murmúrio, da palavra silenciada, na urdidurade estratégias imaginárias. Arquiteto percursossubterrâneos na circulação agitada da cidade.Guardo explosivos como metáforas, meticulosamente. Ato passos clandestinos a mapas circunscritos e esventro códigos como secretos eufemismos.Dinamito os lugares comuns com avalanches de versose faço explodir a solidão, sobre a nervura do medo.