domingo, 5 de janeiro de 2014

| Edmar Conceição |





Embora tenha sobrevivido, não desejo a ninguém uma avaliação de processo cautelar, nem aos mais entusiastas com o Direito. O pior é que, até mesmo nas minhas diligências como oficial de justiça, estou cercado de mandados de urgência, seja para retirar um marido da própria casa para evitar uma lesão à sua esposa ou para realizar uma busca e apreensão de um menor que supostamente sofreu maus tratos.

Deveria ter outras tutelas de urgência, ao invés de promover uma separação de corpos, adoraria cumprir um mandado de junção de corpos, quem sabe promovendo o encontro de um casal de enamorados que se aproximam apenas com o alcance dos seus olhos tímidos e um vazio de mãos que se limitam ao naufrágio de preces desesperadas.

Não obstante, a minha primeira busca e apreensão teve um ritual instigante. Durante uma audiência no Fórum onde trabalho, o juiz, preocupado com a provável pedofilia de um senhor de meia idade, ordenou-me que fosse a sua fazenda, revirar cada canto de suas dependências para efetivar a apreensão de alguma prova de amor, alguma carta ou bilhete que pudesse enquadrar a paixão criminosa pela adolescente.

Encontrei várias provas de amor. Não foi difícil achar um pequeno bloco de anotações cheias de poesias improvisadas, celebrando um amor impossível, almejando, com uma melancolia exagerada, a saudade de uma voz doce e meiga que se afasta cada vez mais.

Havia também algumas mandigas de amor, bem inocentes, mas acreditando no feitiço do desejo. Muitas coisas que ele escrevia eram desabafos, lamentando que não podia ser mais o seu professor de banca, que tinha medo de não ser compreendido, das outras mulheres que tentou namorar, mas não conseguia esquecer os olhos sempre felizes das tardes que passavam juntos.

Algumas cartas transcreviam uma certa demência do acusado, cheias de frases soltas, ora descrevendo o frio que passava quando ela deixava os compridos fios de cabelos dedilhar os seus melhores sonhos no seu corpo tão rude, ora, sem qualquer pontuação, advertia o pai da vítima que tinha ordens do juiz para fugir com seu amor se ele não consentisse o casamento.

Já faz tempo que cumpri essa medida cautelar, nem sei se o réu foi condenado. No entanto, acho que é inevitável uma pena para quem enlouquece de amor, principalmente se tiver o aroma proibido, cheios de versos. Não há reclusão pior de quem respira apenas esperanças distantes, colhendo o ruído do tempo e dos sonhos, rabiscando, na sua caderneta colorida, o encontro que não vem.

O desejo, muitas vezes, sai caro, mesmo que se converta em uma medida de urgência ou uma prova de amor.