terça-feira, 21 de janeiro de 2014

| João Manuel Ribeiro |

05 de janeiro de 2014








Do que longe sabias


Quando o teu rosto noutro rosto findava

era ainda uma vertigem que urgia.

Os atalhos eram sempre possíveis

nesse lugar indefinível e as estações

admitiam fortuitos encontros. Morria

irremediavelmente o desejo de entrever

demasiado perto o que longe sabias.

O coração era esse lugar incomum

onde se conjugava a vida

e o que abissalmente dela desconhecemos.

Mesmo assim perseguias o amor.



Boda e dança


Alteio violentamente as mãos,

sei que me amas com a fome das aves.

Aconchego o coração, os dedos e a boca

como uma boda de silêncio a desmedir

as margens na carne do sangue.

Trincas o húmus fértil do orvalho, o rumor

da ceifa, o tamanho do fermento,

o incomensurável modo de ferir e curar,

o tumor visceral que arquitetaste dentro de mim

como uma dança em que te (de)moras.