sábado, 4 de janeiro de 2014

| Catarina Gomes |





Já viste quão mágico é o pó?

O pó, pergunta ela.

Sim o pó. O pó é vida que se põe por cima das coisas. É nós; é o que fomos. Seremos sempre pó enquanto existirmos, e enquanto existirmos haverá pó. Fica onde já passamos, fica onde já não vamos. Olho para o pó e sei que fui isto. O pó até o há onde não fui. É então justo dizer que o que fui já esteve em mais sítios que eu. E é morte também. E vida. Desculpa-me. Mas haverá coisa mais fantástica que o pó?

Ela que o ouve com atenção reconhece nas suas palavras escorreitas um valor perene. Desafia-o:

Então e o suor?

Sentiu um leve estremecimento, um sentimento de intimidade. De todos os socos que levara até à data aquele era o mais delator pois fora dado na boca do estômago.