terça-feira, 28 de abril de 2015

| Fernando Coelho |

| 14 de abril de 2015 | 





Escrever não é só escrever. Não é só ir pro papel e despejar gente caindo aos pedaços. E colocar chuva nas palavras pensando que faz nuvem. Se o escritor não sentir a sutileza e os esconderijos das fragilidades ainda não acontecidas, da realidade queimando nos dedos, ele não é um escritor.

Não foram as gaitas francesas que chamaram a minha atenção sobre você. Não foram as sanfonas nordestinas nem o sentido grito do Lua. Não foram os pífanos dos tocadores de alpercatas rotas. Não foram os sabiás curtindo mamão doce. Não foram os pianos lustrosos da sala de concerto do Jardim Botânico, todos de pé, abraçados às palmeiras imperiais, esperando Tom Jobim. Nem os bandoneons copiados do coração de Piazzolla. Muito menos os banjos dos estradeiros. Nem o violão de Yamandu. Eu vesti a roupa da música de Cartola, e nem isso poderia ser. Outra hora, quando eu chorava, não teria sido a voz de pedra tomando banho de Henry Salvador? Muito menos a voz cravejada de andarilhos dos morros de Monarco. O que me chamou a atenção sobre você foi o seu sorriso. O pior de tudo, ele não tem nem som. Dedilha o silêncio dos Alpes, de Itapuã, de peixes nas redes, de uma folha saindo do chão e voltando para a sua árvore de berço. E só.  

Deus exagerou demais. Por que teve que pegar um menino de pouca leitura, um cara que detesta o poder, abridor de gaiola de passarinho, de pouco conhecimento, sem saber fritar ovo, que chora dentro do mar, de quase nenhum dinheiro e botar dentro dele tanto amor por uma mulher? Por que ele fez isso logo comigo, que nunca peço nada?