terça-feira, 31 de março de 2015

| Fernando Coelho |

17 de março de 2015





Ele me contara, com os olhos de perfurar roupa nova, e a voz pendular, rouca, como um peixe afogado. Me contara, desesperador de estupor e vertigem. De uma saudade tão gigantesca, que lhe fazia as narinas escorrerem sangue em pedacinhos. Que nela, na mulher que amara, da cintura pra baixo, tudo cheirava a macela líquida. Da cintura pra cima, tudo rescendia folhas de nuvem, com cheiro de almíscar dourado que ele engolia. Tipo asas de passarinho novo, cheirando a queda. Me contara que, ao tocá-la, sua tontura desfazia-se em plenas palavras de metal, bronze, prata, dinamite, terra rochosa. E que as pernas dela não eram pernas comuns, apenas uma visão multicor do paraíso de dunas de água rachadas. Quando a tocava, e me dizia completo de vãos e choradeira, não havia saída, nem aventura, nem sonho, apenas uma caverna de instintos, com o estampido do mesmo barco com que viera, para sempre, para nunca mais voltar, na travessia daquele rio, o Paraguaçu, com um milhão de benzedeiras a lhe acalmar os tímpanos com cantigas ancestrais, indo para a rampa do Mercado Modelo. Ao ouvir aquele homem acabado de amor, torto, como uma torre mal feita, esganado de lívida paixão numa roupa branca com a gola puída e suja, resolvi também morrer de amor. É ainda a melhor morte. E começo agora, dizendo, eu te amo, meu amor. Até depois de morrer. E nunca mais vou te ter.