22 de novembro de 2014
Hoje pela manhã perguntei a Mara em que estação do ano nós estamos. Ela fez uma rápida contagem com os dedos como se consultasse um calendário, refletiu um pouco e me afirmou que estamos no inverno.
Segui até a varanda de nossa casa, mas o que encontrei foi uma longa brisa primaveril entregue aos pássaros e, ainda na ponta do céu, um sol anunciava o verão. Só agora que anoiteceu sentimos o frio do inverno, procuramos um cobertor e algo quente para beber, mas, apesar do frio, escolhemos não fechar completamente a janela do nosso quarto para não impedir que a noite continue a decorar nossa casa com o seu melancólico perfume outonal.
Quando visitou as Américas, Albert Camus escreveu em seu diário de viagem sobre o nosso país: Lugar em que as estações se confundem umas com as outras; onde a vegetação inextrincável torna-se disforme; onde os sangues misturaram-se a tal ponto que a alma perdeu seus limites.
Não sou nenhum patriota, mas se é verdade o que dizem sobre a criação do homem, não tenho dúvida de que o barro usado por Deus para moldar meu coração veio desta terra.
No Brasil, os dias outonais também são primaveris. O sol febril das manhãs pode repentinamente dar lugar a uma lua congelada no anoitecer. Do dia à noite as estações brincam juntas como crianças que correm de um lado ao outro. Também em meu coração as estações alegres e tristes se confundem sempre umas com as outras e hoje passeiam de mãos dadas com as estações dessa noite.