| Fernando Coelho |
30 de setembro de 2014
Aqui me tens, meu amor, despreparado como um cavalo atropelado pelas lufadas da paixão, a correr solta em minhas veias que não morreram. Aqui me tens, à frente de homens da roça, com os seus arados revolvendo não a terra, mas as escavações de esperanças, enquanto no rosto de cada um, assopra o suor com vontade de voltar pra casa, para os panos da mulher amada, para os dengos das coxas roxas da mulher, desesperada para fazer amor sobre os sacos de milho e trigo.
Aqui me tens, não mais o signatário de palavras que voam, mas o operário da madrugada, o estivador das estrelas carregando água pelo varado dos olhos a te empaparem a boca de fruta pão. Aqui me tens, tão inteiramente teu, quanto um passarinho tremendo, quanto uma embarcação com medo do porto, quanto uma concha que se esqueceu de abrir, quanto uma parede azul que já foi água um dia.
Envelheci pensando em ti, e é pelos cantos do telhado que vivo, exposto ao mutirão do que virá, mas podes me reconhecer no chão, na folha quase seca que não desistiu, num cesto de morangos protegidos por formigas sem fome. Aqui me tens, incógnito, como um grilo, seco pela devassidão da noite, mas nunca indiferente, que o amor me mantém ereto, como o bronze do desejo. Aqui me tens. Usa-me, enquanto há o poema, a alegria do abraço dentro de um sino. Usa-me, que sou teu.